08 de setembro de 2008 Exercício: SOLOS NA MADRUGADA Por Paulo Cesar (Estúdio de uma rádio. Sobre uma mesa grande, sem falar da aparelhagem para transmissão, o locutor tem um CD player e um pick-up, um cinzeiro, um pacote de cigarros aberto e seu celular. Atrás dele, um ventilador de pé, parado, e uma geladeira. É uma sala pequena, de paredes descascadas, móveis quebrados. Em volta dele, uma instalação de CDs e velhos vinis. Tocam últimos acordes de “Ouça”, de Maysa. Leopoldo Urano traga seu cigarro pendurado na boca)

OFF: - “E você, fez questão de negar, fez questão de não dar...”

LEOPOLDO: - Assim, queridos amigos dessas noites sem sono, ouvimos “Ouça”, a dolorosa canção de Maysa, a pedidos da Rosana, a solitária do Grajaú.

(O telefone toca)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte! Diga-me tudo o que você quer dizer!

OUVINTE: - Aqui quem fala é o Lúcio. Pô, rapaz, minha mulher vai me largar pra ficar com outro. Mas, por mim, quero nem saber. Vou arrumar outra, rapaz. Não tem essa de corno, não. Corno! Quem não é corno?

LEOPOLDO: - Lúcio, amigo, isso acontece a toda hora.

OUVINTE: - Não, não vou te pedir conselho, não. Eu quero ouvir uma outra música da Maysa que você não tocou.

LEOPOLDO: - “Meu mundo caiu” não vale.

OUVINTE: - É essa, mano. Minha mãe cantava quando meu pai arrumou uma amante.

(Entra “Meu mundo caiu”. O celular de Leopoldo toca. Nervoso. Vai pegar o telefone, mas esbarra no cinzeiro, jogando o celular no chão. Leopoldo se abaixo para pegar o celular, que depois de tocar, emudece. Leopoldo olha o visor, e esmurra a mesa).

LEOPOLDO: - Porra! Não era do jornal. De quem é esse número aqui, que número é esse? Não era do jornal, porra. Será que não vão me ligar com a resposta?

(Toca o telefone do estúdio. Leopoldo entra no ar)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte! Diga-me tudo o que você quer dizer!

OUVINTE: - Leopoldo, sou eu, Leopoldo. Não está reconhecendo mais minha voz?

LEOPOLDO: - Minha prezada Helena, estou às suas ordens.

OUVINTE: - Meu filho, hoje estou morta de dor nas pernas, é o mesmo de sempre, não vamos falar disso. Quero tanto ouvir minha música. Melhor do que isso, só ouvir sua voz, meu filho.

LEOPOLDO: - Mamãe dizia que minha voz era um bálsamo!

OUVINTE: - Menos, Leopoldo. Põe essa música logo, meu filho.

LEOPOLDO: - Ela se chama Helena, mas sua música preferida é...

(Entra “Laura”, em arranjo para piano. Toca o celular. Leopoldo olha o visor e atende)

LEOPOLDO: - Só agora, cara! Esperei o dia todo, só agora que você liga, Pafúncio! (pausa) O que é isso? Não falou com ele ainda? Falou ou não falou? Estou apostando tudo nisso, cara. (pausa) Cara, você me deve isso, não quero nem saber. Você falou, vai cumprir. (pausa) Preciso desligar agora. Liga de novo, assim que falar com o Macedo.

(A canção está chegando ao fim. Leopoldo levanta, abre a geladeira, bebe água no gargalo. O telefone toca, ele vai atender)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte! Diga-me tudo o que você quer dizer!

OUVINTE: - Leopoldo, toca aí “Eu não sou cachorro, não!”. Do Waldick, esse que morreu agora, sabe, né?

LEOPOLDO: - Quem não conhece o Waldick, meu amigo? Mas e você? Você não me disse quem você é!

OUVINTE: - O meu nome é Tenório. Sou vigia noturno, ta sabendo? Aliás, fui vigia, porque me mandaram embora hoje. Tô muito puto! Minha mulher vai me deixar maluco quando eu disser pra ela.

LEOPOLDO: - Está falando de onde, Tenório? Do trabalho?

OUVINTE: - É, to de serviço. É meu último fim-de-semana aqui.

(Entra canção do Waldick. Leopoldo levante para ir ao banheiro, uma porta atrás. Quando está urinando, o celular toca)

LEOPOLDO: - Vai ter que esperar, não vou sair me mijando.

(Leopoldo sai do banheiro, fecha a braguilha correndo, vai atender. O telefone pára de tocar).

LEOPOLDO: - De novo, porra! Quem será esse infeliz que não espera a gente atender, nem deixa recado?

(A canção de Waldick termina. Telefone da rádio toca de novo.)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte! Diga-me...

OUVINTE: - Bundão! Eu quero dizer pra você que eu vou me matar, vou

me matar, ouviu o que eu disse, brou?

LEPOLDO: - Vai se matar e me ligou, meu amigo? Não faça isso. Qual sua idade, rapaz?

OUVINTE: - Não quero ser salvo, não, Mané. Tõ me mandando, sacou. Toca pra mim uma canção daquele maluco.

LEOPOLDO: - Rapaz, maluco é o que não falta.

(Mais de um minuto de silêncio)

OUVINTE: - Toca o Nirvana aí, sangue. “Tem aí “Come as you are”?

(Entra “Come as you are”)

LEOPOLDO: - Rapaz, não faz isso, olha só, escuta...

(Toca o celular. Leopoldo atende)

LEOPOLDO: - Fala, Pafúncio. (pausa) Você é um merda, Pafúncio. Eu já sei que você... O quê? Falou? Ah, meu Deus, é hoje! E ele? Não? (pausa) Não acredito! Minha voz é um espetáculo, um bálsamo, Pafúncio. Eu sou o locutor que o dr. Macedo precisa.Diz isso pra ele, seu merda. Eu chego ou não chego lá? Chego, só depende de tu. (desliga).

(“Come as you are” termina. O telefone da emissora toca)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte!

OUVINTE: - Sou eu, Sérgio, ta escutando?

LEOPOLDO: - Leopoldo Urano, sim, senhor, às suas ordens! Esta é mais uma madrugada de sonhos e canções para você, meu amigo ouvinte!

OUVINTE: - Vou mandar te prender, Sérgio. Que Leopoldo é esse? Urbano, que urbano! Essa tua voz é inconfundível, safado. Você me conhece, Sérgio, me conhece! Vou mandar o oficial de justiça aí nessa espelunca dar uma dura em você, desgraçado! Eu não sossego enquanto não...

(Entra “Balão Azul”. Leopoldo põe o fone no gancho. Abre a geladeira, bebe mais água no gargalo, se engasga. Tira o telefone do gancho. Pega o celular, vai discar, mas desiste. Põe o telefone no gancho. Declama a letra da música para os ouvintes, enquanto revira os bolsos da calça.

LEOPOLDO: - Pega carona nessa cauda de cometa / pela Via-Láctea, estrada tão comprida / Brincar de esconde-esconde numa nebulosa...

( Telefone da emissora toca. Leopoldo atende)

LEOPOLDO: - Boa-noite, amigo ouvinte!

OUVINTE: - Esconde-esconde mesmo, porque a mulher vai mandar te prender, Mané!

LEOPOLDO: - Meu amigo, de onde quer que você esteja ligando, muito obrigado pela sua audiência.

OUVINTE: - É o mico do ano, Mané, não tem vergonha, não?

LEOPOLDO: - Amigo ouvinte, Jesus disse: Não julgueis para não serdes julgado! Quem nunca errou que atire a primeira pedra! Quem é você, que não sabe o que diz?

OUVINTE: - Ele é Sérgio, gente, tão me ouvindo? S-É-R-G-I-O!

(“Balão Azul” prossegue e Leopoldo deixa o maluco falando até silenciar. O celular  toca ao mesmo tempo. Leopoldo atende)

LEOPOLDO: - Fala, seu merda! Eu aqui, no maior sufoco, com a maluca da Gracinda no meu pé, e você a me cozinhar com esse papo de dr. Macedo isso, dr. Macedo aquilo, que vá se fuder o... (pausa) Então na semana que vem... Fala sério, porra! É? Disse isso? Tô feito, era tudo o que eu queria! Você é um merda, Pafúncio. Um merda, ta entendendo? (desliga)

(Leopoldo põe o fone no gancho e o telefone toca)

OUVINTE: - Leopoldo, quem te fala é um morto, Leopoldo, um morto...

(Leopoldo escolhe um CD e põe no CD player “Chatterton”, com Ana Carolina e seu Jorge).

OFF: “Chatterton suicidou... Kurt Cobain suicidou... Vargas suicidou... Nietzsche enlouqueceu / E eu... não vou nada bem!”

(Abre-se a porta do estúdio. Entra Pafúncio e atira em Leopoldo. Gracinda entra em seguida, com o oficial de justiça logo atrás)

PAFÚNCIO: - Sou um merda, Leopoldo, mas tenho uma mira...

GRACINDA: - Seu cretino, você matou o Sérgio!

PAFÚNCIO: - Eu matei o Leopoldo. O Sérgio, se você quiser, você mata. (oferece a ela a arma. Tudo se apaga).

FIM