O “personagem real” que viaja neste “último metrô” é inspirado na história de Jean Charles (brasileiro, vítima de crime de Estado, dentro do metrô de Londres) em seu suposto percurso de volta à casa, na noite anterior à sua morte.
1) O personagem fala mal de um parente próximo:
- Ela nunca vai entender, eu sinto isso na massa do sangue todo dia. Quem não sai do reme-reme nem imagina o que rola aqui nesse mundo mundial, nessa capital sem fim. Ela nunca vai aprender inglês. Como eu queria... que ela fosse capaz de entender que vim lutar pelo meu destino. A gente sofre nessa cidade, sim. Com o inverno, com a diferença, com a indiferença, com a privação, com esse jeito deles de olhar sem ver a gente. Ela escreveu que, nas fotos, tou sempre com cara de quem não come nem dorme direito. Agora mesmo, apesar do verão e do cheiro desse vagão, vou esquentar alguma coisa quando entrar em casa, hoje não deu pra comer direito de manhã cedo. Na primavera que vem, quando eu chegar com o perfume, a boca grande dela vai fechar, e o nariz explodir.
2) O personagem procura se tranqüilizar sobre um problema próprio de saúde
- Olha só a placa de saída para o parque! Aqui, só tem natureza entre a grades, nesse verão selvagem que morde ainda mais as veias das pernas, é muito tempo em pé. Mas também é bom que o verde volta todos os anos sem mentira de patrão. Ficar de novo debaixo das copas, olhando o céu através das folhas. As flores, as estações demoram, mas chegam, sempre, como nesse vagão do metrô, como o remédio que queima na agulha da farmácia do paquistanês, o da caixa com a flor antiga pintada, que entranha pela perna e no fundo do osso, mas é pra melhorar a dor. Meus pulmões também vão respirar melhor dentro do parque que é onde a névoa danada some. Respirar bem é tudo.
3) O personagem faz três perguntas sobre outro passageiro no metrô; suas palavras refletem certa inveja.
- Saca só o uniforme dele... Até os guardas são posudos aqui, cheios de marra. Estão cada dia mais nervosos, vigiando até colega. Será que é verdade esse troço que a Scotland Yard não usa arma quase nunca? Aquele ali até que começa a parecer mais simpático, quase gentil – me observa e inclina a cabeça. Foi ele mesmo que eu vi antes, no dia que aquela senhora africana passou mal. Acho que ele deitou ela no banco, eu tentei ajudar, ele levantou a mão, me olhou com cara séria, mas falou direito. Será que ele sabe onde fica o Brasil? Bem que esses caras têm a graninha certa deles, adicional de não sei o quê, de risco por cheirar imigrante todo dia, esses negócios... Eles vivem é sonhando em agarrar uma brasileira, nem precisa ser gostosa, e tomar um porre daqueles numa praia azul. Será que ele já prendeu alguém aqui no metrô? Tenho certeza que ele estava me olhando.
4) O personagem ensaia mentalmente o que fará quando chegar a seu destino.
O metrô quebra mesmo um galho nesse bairro. Vou chegar logo pra a parte melhor da rotina do dia: devolver o gato da vizinha que cochila no meu tapete; regar aquela hortênsia triste; encher um bom copo com chá gelado; esquentar o peixe com batatas fritas; abrir a janela e respirar – mas respirar de verdade, que nesse metrô, e no restaurante, a gente não respira direito, vivo agora com essa mania de respirar fundo toda hora, deve ser saudade, ansiedade. Olho a foto dela todo dia. Minha mãe não gostava dela, mas depois que eu vim mesmo, e não teve acordo com a solidão, elas passaram a conversar mais.
5) O personagem lembra com nostalgia de uma situação (coletiva) do seu passado em que se sentiu mais feliz que o momento presente.
Bom mesmo era sair com ela pela praça, depois do baile. Tomar cerveja com todo mundo, sem pressa. Beijar ela sem pressa, que as inglesas não sabem beijar, e as putas não querem nem ouvir falar de usar a boca para outra coisa. Gostava do beijo dela sem gosto de bebida, na boca da noite, no portão da casa, antes do jantar com feijão, quando o sol vai mesmo embora, e a passarada fica doida, caçando um canto de galho para passar a noite. A noite era bonita, mas o que eu mais gostava era ir dormir depois de jogar muita conversa fora e beijar aquela boquinha linda. Eu ia dormir e sonhava que dava mesmo um jeito de viajar o mundo e voltar bem de dinheiro para beijar ela sempre, com a mesma agonia dos pássaros que pensam que o sol vai embora para nunca mais. Aqui tem inverno tranqueira, o sol vai embora mais cedo, e o engraçado é que a gente vem aqui para ganhar, justamente, a vida... que aprender inglês é bom, mas não vou conversar nada de inglês quando voltar para a praça e tomar cerveja da boa com eles. A cerveja é gelada como a morte no inverno, e dourada como o sol de lá, a luz de sempre. Para sempre.
CORO: A gente espera por você. E, se você não voltar, continuamos esperando...