Publicado originalmente por Luiz Fernando Vianna no Segundo Caderno, d’ O Globo, em 02.09.2012.

Aula das Quebradas. Alunos assistem a uma palestra no Colégio Brasileiro de Altos Estudos: troca de informações. Foto de Camila Maia/O Globo

Na Universidade das Quebradas já estudaram Luciana Bezerra (uma das diretoras do filme “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”), Leandro Firmino da Hora (o Zé Pequeno de “Cidade de Deus”), Marcus Vinicius Faustini (um dos principais articuladores das ações que vêm aproximando centro e periferia no Rio) e um número crescente de pessoas empenhadas no fim da ideia de cidade partida.

O programa de extensão criado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) começou com 40 alunos em 2010, teve 50 em 2011, e a nova turma, que iniciou suas atividades em 7 de agosto, está com 70 (selecionados entre 300) — além dos que, mesmo já tendo feito o curso, voltam para assistir a aulas. “Uma vez quebradeiro, sempre quebradeiro” é um lema do projeto.

Idealizado e desenvolvido por professoras universitárias experientes como Heloisa Buarque de Hollanda, Numa Ciro, Beatriz Meira e Silvia Soter, o programa abre as portas da UFRJ — mais especificamente, do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, antiga Casa do Estudante, no Flamengo — para pessoas de idades e formações variadas. Não é preciso ter o ensino médio completo.

— O edital é severo, igual ao do pós-doutorado. Mas, em vez de diploma, avaliamos o portfólio. E há entrevista para vermos se a pessoa tem potencial para multiplicar. Não é coisa para iniciantes. É de elite para elite — afirma Heloisa.

TROIA É AQUI

Os escolhidos, portanto, já trabalham na área cultural e estão ligados a redes que lhes possibilitam a circulação do conhecimento adquirido nas aulas — que acontecem toda tarde de terça-feira, havendo também “passeios culturais” em outros dias da semana.

O ator Leandro Santanna está num momento de maior visibilidade: é o Herculano, motorista de Tufão e Carminha, em “Avenida Brasil”. Mas entrou para as Quebradas, em 2010, como coordenador do Espaço Cultural Queimados Encena, em Queimados, na Baixada Fluminense, trabalho que realiza há dez anos.

“Estar próximo do meio acadêmico te dá mais coragem para determinados voos”
ROBSON FEIJAH’N, Cantor e produtor da Cidade de Deus

— Tinha um encontro semanal com oito pessoas para repassar as aulas e multiplicar aquele conteúdo. Eu me lembro de uma aula sobre o cavalo de Troia, de onde saíam os soldados escondidos, e uma pessoa falou: isso também acontece quando um grupo de traficantes de uma favela tenta invadir outra — relata Santanna.

Ele já participou de um projeto aprovado num edital da Secretaria estadual de Cultura. É algo que está se ampliando: alunos das Quebradas sendo contemplados em processos seletivos que antes eram praticamente restritos a artistas e produtores de classe média.

As irmãs Denise Kosta e Cristina Hare, por exemplo, criaram a TV Hare, que funciona no endereço www.tvhare.com. Tiveram um programa premiado pela Secretaria estadual de Cultura e vêm fazendo séries e quadros de entrevistas. Foi à TV Hare que Heloisa disse ter se preparado a vida inteira para realizar as Quebradas: “A gente está inventando a cultura do século XXI”,afirmou a professora.

ENCONTRO ENTRE IGUAIS

Heloisa aposta no desmonte das fronteiras geográficas e simbólicas entre as periferias e os habituais protagonistas da produção cultural e intelectual. Ela ressalta a importância de a UFRJ receber uma nova categoria de alunos, que também são professores, pois possuem um saber que a maioria dos acadêmicos não tem.

— A universidade está ganhando mais do que eles com as Quebradas — diz ela.

Christiane Quintal, conhecida como Queen Odara, é referência há muito tempo no universo do hip-hop. Escreve atualmente para o site Radar Urbano e apresentará, no fim do ano letivo das Quebradas (em meados de 2013), o projeto de uma revista virtual.

— Vou realizar meu sonho de viver só de comunicação — confia ela, nascida em Bangu há 33 anos e que retomou a faculdade de Jornalismo após o filho, hoje com 17, crescer.

Autora do documentário “Rap de saia”, Christiane dizque o hip-hop lhe deu “toda essa oralidade”, mas falta mais consistência na escrita, o que é fundamental para quem quer participar dos editais culturais. Percebendo essa situação, foi firmada uma parceria com a Fundação Roberto Marinho, que começou neste ano a dar aos quebradeiros aulas de Lin- guagem e Expressão.

— Adaptamos o conteúdo do Telecurso às especificidades deles, que têm ótima oralidade — explica Vilma Guimarães, gerente geral de Educação da fundação.

As Quebradas também cumprem a função de dar a agentes culturais já experientes uma “chancela acadêmica”, como diz Robson Feijah’N, cantor e produtor na Cidade de Deus.

— Estar próximo do meio acadêmico te dá mais coragem para determinados voos — diz ele, que chamou outros quebradeiros para a sua Rede Social Bandeirantes, de inclusão por meio da cultura.

O ator Pablo Ramoz, que trabalha no Ecomuseu de Santa Cruz, também foi atrás de embasamento acadêmico para a sua prática voltada para a memória e a produção cultural de seu bairro, na Zona Oeste.

— O que mais me interessa nas Quebradas é a miscigenação de saberes — resume ele.

No próximo ano, o projeto da UFRJ, patrocinado pela Petrobras, terá um módulo resumido, de seis meses, na Rocinha, com alunos da favela. Em 2011, o mesmo aconteceu em Manguinhos.

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