ESTADO DA ARTE

A tecnologia afetou inúmeros sistemas de representação culturais em processos que começam a ser estudados em diversas áreas mas há um campo ainda pouco explorado no país de interdisciplinaridade entre áreas exatas como Ciência da Computação, Engenharia, Física e disciplinas humanas como as Letras, Artes Visuais, Música. Essa colaboração entre disciplinas pode ser útil a uma melhor compreensão de demandas de cada área e facilitar atividades de cooperação, como no desenvolvimento de plataformas de produção artística (software, hardware, etc), distribuição de bens culturais (sistemas, arquivos, digitalização, portais) e produção teórica.

Recentes programas do Ministério da Cultura como o XPTA_Lab e o “Bolsa Funarte de Produção Crítica sobre Conteúdos Artísticos em Mídias Digitais” da FUNARTE, são produtos de uma extensa discussão das agências do Estado com a comunidade nacional de artistas, criadores, estudiosos e promotores culturais.

Recentemente o MinC e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) lançaram uma rede social denominada Fórum da Cultura Digital Brasileira (Culturadigital.BR) com o objetivo de reunir e discutir tópicos considerados essenciais na cultura digital procurando promover um debate amplo, público, aberto e direto com a sociedade. Observar o cenário brasileiro é importante para compreender como a cultura está também – e mais do que nunca – inserida nas agendas de desenvolvimento tecnológico do país.

É principalmente na universidade que vemos como é urgente a adaptação a essas novas demandas.

A reflexão tradicional em disciplinas como as Artes Visuais, Musica ou Letras sem perceber o impacto das tecnologias digitais nessas áreas, certamente vai tornar esses estudos obsoletos em curto prazo.

Uma saída provavelmente eficaz é a de pesquisar modelos de cooperação interdisciplinar interessantes para as universidades do país, e nesse caso a UFRJ.

Um exemplo de cooperação bem-sucedida entre diferentes disciplinas de universidades, Estado, agências de informação, artistas nacionais e internacionais na Europa, é a organização austríaca Ars Electronica Futurelab. O Ars Electronica surgiu originalmente como um festival de arte e novas mídias na cidade de Linz, mas com o crescimento de interesse público, acadêmico e governamental, expandiu-se também na construção de seu museu próprio e de seu centro de produção interdisciplinar chamado “Futurelab”. O Futurelab é uma plataforma interdisciplinar que lida com interesses da arte, da tecnologia e sociedade. É uma espécie de laboratório-modelo de arte e novas mídias no qual inovações tecnológicas e artísticas se modelam e se influenciam mutuamente. O time do laboratório é articulado por diversas habilidades especializadas e suas atividades incluem exposições de engenharia e design, instalações artísticas, bem como pesquisas colaborativas junto a universidades e associados da iniciativa privada.

Essa iniciativa austríaca serviu como modelo para a consolidação de muitos laboratórios e plataformas acadêmicas ao redor do mundo como por exemlo o Media Lab, instalado atualmente no Museu do Prado na Espanha.

O MediaLab-Prado tem como objetivo a inserção social e a disseminação da cultura computacional em um amplo aspecto social e comunitário e produzir um pensamento sobre como o desenvolvimento tecnológico em determinadas localidades pode criar uma rede social real e afetar a vida das comunidades no entorno dos espaços dedicados a essa forma de representação artística mediada via computadores.

O Brasil ainda não dispõe de espaços de produção interdisciplinar como o Futurelab ou o MediaLab-Prado.

Algumas iniciativas em São Paulo como o Lab_Mis e o FILE Labo propõe a produção artística em novas mídias, no entanto, sem uma estrutura sistemática de cooperação entre profissionais de áreas criativas e técnicas. Ambas as organizações, no entanto, frequentemente promovem debates sobre as possibilidades de atuação interdisciplinar no Brasil, apresentando mesas, palestras e estudos de caso onde esse tipo de prática produziu bons resultados.

Um exemplo de relação bem sucedida entre universidade e sociedade civil, em âmbito de extensão universitária que pode aqui ser relatada foi realizada neste ano de 2009, no mês de julho, entre o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, MinC, RNP, FAPESP, NARA, Mackenzie e USP entre outras redes de pesquisa acadêmica de alta performance, que produziram a primeira transmissão de cinema em super alta definição (4K) através de uma rede acadêmica com velocidade de 10Gbps (o equivalente a 10 mil casas conectadas a 1 Mbps).

Outro exemplo de um importante evento onde as questões relacionadas à interdisciplinariedade entre arte, ciência e inovação eram o ponto central de discussão, foi o “ Paralelo – Tecnologia e Meio Ambiente” realizado no MIS São Paulo em março de 2009. Dessa maneira, o MIS São Paulo posiciona-se estrategicamente tanto no papel de fomentador de produção interdisciplinar através do Lab MIS, quanto como um debatedor desses formatos junto à comunidade de interesse e de seu público. A interação produtiva dessas duas atividades no caso do MIS São Paulo, é crucial para que o conjunto de práticas dentro da instituição acompanhe as discussões na esfera pública e vice-versa.

Outro congresso onde a interdisciplinaridade tem importância fundamental, porém voltado à produção acadêmica da área de música&tecnologia, é o Simpósio Brasileiro de Computação Musical (SBCM). Através desse evento bianual, é possível encontrar pesquisadores nas áreas da música eletroacústica, áreas específicas da engenharia acústica, computação musical, programação de sistemas de interação e outros.

Portanto, o cenário brasileiro nos convida a repensar as articulações entre disciplinas que tradicionalmente teriam pouco o que se relacionar umas com as outras. E como a área da cultura agora é reconhecida como um dos desafios centrais da virada tecnológica do país, a comunidade acadêmica deve pensar urgente em plataformas interdisciplinares alternativas como o Alexandria 3000.

O PROJETO “POLO DIGITAL”

RESUMO
O Polo Digital no PACC/UFRJ tem como objetivo desenvolver estudos, encontros e seminários orientados para as inovações na área da criação, difusão e consumo da cultura e do conhecimento em base digital. O Polo Digital, uma linha de pesquisa do Programa Avançado de cultura Contemporânea, trabalha em colaboração com diversas unidades da UFRJ, com o Projeto Espaço Alexandria/ PR2/UFRJ, com O Instituto de Projetos e Pesquisa, e o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas.

OBJETIVO
Em todas as suas ações o Polo procura repensar os paradigmas dos estudos sobre cultura e estabelecer, de forma sistemática, o diálogo entre as áreas de cultura e tecnologia, articulando escritores, jornalistas, arquitetos, artistas visuais, historiadores, músicos, cientistas da computação e engenheiros, num programa de estudo e pesquisa .
O Polo , que vincula-se ao novo campo de conhecimento os Estudos Culturais do Software, tem como prioridade a produção de um pensamento teórico e a criação de modelos de análise sobre as perspectivas culturais dos recursos oferecidos pelos softwares que estruturam as interfaces culturais, as metamidias e os processos de convergência das novas narrativas transmídias, bem como sobre o impacto da cultura na criação dos softwares culturais.

Objetivos específicos:

TEÓRICOS

• Estabelecer um campo de pesquisa definido no âmbito das narrativas hospedadas na web.

• Mapear os procedimentos em curso na experiência com a palavra em padrões de convergência de midias e procedimentos criativos .

• Estudo bibliográfico das principais obras e teorias da nova area de conhecimento emergente, a dos “software cultural studies” ou os “estudos do software”.

• Discutir as teorias críticas da literatura e seus desdobramentos a partir do formalismo russo e do estruturalismo dos anos 1970 e identificar a importância progressiva de algumas noções como autoria, recepção e cânone.

• Desenvolver novos modelos experimentais de análise para o estudo da literatura, das práticas da palavra e da leitura e do consumo cultural no ambiente digital .

APLICADOS:

• Estabelecer uma articulação direta com os “game studies” a matriz de ponta em questões relativas às narrativas multiplataformas e uma das grandes apostas discursivas atuais na área da educação.

• Implementar um espaço transdisplinar e tecnicamente equipado para experiências com as novas narrativas digitais e seus múltiplos recursos, espaço ainda inédito na área de Letras e dos Estudos Culturais.

• Criar e experimentar novos modelos narrativos e identificar convenções emergentes para a criação ficcional e poética , sem as quais as narrativas expandidas (ou aquelas que promovem novas experiências de linguagem a partir de sua remixagem profunda com suportes e procedimentos artísticos e midiáticos diversos ) perdem em força simbólica e intensidade autoral (como é o caso de grande parte dos games de entretenimento) .

METODOLOGIA

A metodologia utilizada no Polo Digital será desenvolvida a partir de estudos bibliográficos intensivos, encontros periódicos de discussão e apresentação de trabalhos, organização de seminários semestrais com pesquisadores do exterior e do país e estruturação de um laboratório para experiências criativas e narrativas. O compromisso de disseminação dos resultados obtidos faz parte intrínseca desta metodologia.

As ações e as atividades do projeto serão articuladas em:

a) encontros quinzenais com escritores, técnicos e pesquisadores da UFRJ e de outras instituições acadêmicas;
b) encontros entre produtores culturais, artistas e profissionais de tecnologia para articulação de ações e experimentos comuns.
c) organização de seminários semestrais para atualização dos estudos e pesquisa
d) criação de um espaço experimental articulado com pesquisadores das áreas de humanas, bem como da COPPE/UFRJ e de outras unidades como a neurologia, cognição e engenharia de sistemas, através do projeto Espaço Alexandria (PR2/UFRJ), os projetos do Fórum Permanente de Cultura & Tecnologia do Instituto Projetos e Pesquisa e do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV RJ.
e) criação de um site Polo Digital.

Como pode ser facilmente observado, é ainda, raro na área de humanas da UFRJ o desenvolvimento de espaços permanentes de pesquisa, diálogo, capacitação e criação compartilhada entre as áreas de letras, artes e tecnologia.
O Projeto de Pesquisa e Laboratório experimental de narrativas Polo de Cultura Digital por sua vez, pretende atender a essa demanda, que hoje se torna urgente em função do atual impacto do desenvolvimento da cultura das tecnologias digitais e dos recursos gerados pelo ambiente descentralizado e interativo da internet para a pesquisa e para a criação cultural bem como para a formação participativa de acervos culturais focados na contemporaneidade.

É a criação e a implementação desse espaço que este projeto propõe como um piloto de novo formato de pesquisa e criação interdisciplinar e interinstitucional na UFRJ.