EROTISMO É ISTO, PORNOGRAFIA É AQUILO?
O jogo de oposições entre sexo e amor, que Jabor refere em sua
crônica e é musicado por Rita Lee, poderia ser parodiado a propósito
das distinções/relações entre pornografia e erotismo.
As fronteiras, nestes campos, parecem bem mais complexas, como se pode observar
em textos teóricos, artísticos e midiáticos.
Tal dificuldade fica patente em lançamento recente de dicionário pornográfico
sob a direção de Philippe di Folco
[1]. Comenta o resenhista do livro, Patrick Kéchichian
[2], que a pornografia apenas recentemente, há uns dez
anos mais precisamente, passou a ser considerada como um tema de estudos. Os
objetos e práticas pornográficas, ligados a mecanismos de perversão,
certamente, não eram, novos ou inéditos, o que evoluiu foi a visibilidade,
a publicidade e uma certa banalização dessas práticas.
Diversos artigos compõem o dicionário na busca de usos exóticos
da sexualidade em viagens que vão da China à Índia, do
Japão à Escandinávia.
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Voyeur
Saló - Os 120 dias de Sodoma
de Pier Paolo Pasolini
extraído de EntreLivros, ano 1, nº 12
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Objeto questionável, verdadeira armadilha lexicográfica, a pornografia
parece alimentar-se de todas as contradições a seu respeito. Com
efeito, colocar diante de si objetos e pensamentos de intensidades diversas,
que nos são interiores, e examiná-los tranqüilamente é
problemático. A pornografia apresenta-se mais como “um ponto de
vista”, segundo a opinião de um dos articulistas. A característica
de mapeamento do dicionário aponta a amplitude do campo e nossa sede
de compreensão desta palavra, cuja etimologia grega alude à prostituição
e à escritura, ou seja, comércio por um lado e a uma corrente
de signos substitutivos do real, por outro. Sem dúvida, a sociedade do
espetáculo atual, em seu viés, neoliberal e competitivo, parece
tudo querer mostrar, tudo tornar público e isto explica, em parte, a
tendência da passagem do segredo erótico à obscenidade pornográfica,
questões que vêm sendo discutidas a propósito da temática.
Recente matéria na Folha de S. Paulo comenta a pesquisa da jornalista
americana Ariel Levy sobre sexualidade para consumo e a obsessão feminina
em parecer estrela pornô. Para a pesquisadora, no pós-feminismo,
e nós diríamos também no pós-pornográfico,
as mulheres imitam a pornografia: “hoje, as pessoas não têm
vergonha de consumir, elas são descaradamente capitalistas, não
há resistência ideológica”
[3]. Reduz-se a sexualidade a algo que se pode comercializar,
seja sob a forma de implantes de silicone, fio-dental de poliéster, venda
real de sexo, como na prostituição, pornografia ou strip-tease.
Constrói-se gradativamente uma semiologia do travestimento, atrelada
à busca de lucro e visibilidade.
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Travestismo pornô
Jovem americana se exibe em concurso de camiseta molhada.
extraído de Folha de São Paulo, 14/11/2005
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Entre nós, os recursos teatrais de Tiazinha, corpo-fetiche da mídia
contemporânea, bem como a lógica das casas de encontro, exprimem
posturas bastante diversas do comportamento dos libertinos, tal como foi explorado
e discutido por Bataille, Sade, Sacher-Masoch ou Krafft-Ebing. Nestes últimos,
predomina a sexualidade elaborada, lentidão, contratos e nexos político-existenciais,
distintos do ludismo superficial ou das escolhas consumistas de novas práticas
de servidão, espancamento das lúdicas casas de sexo, etc. São
exemplares as matérias publicadas sobre a mercantilização
do corpo da atriz sadomasoque Suzana Alves, a Tiazinha. Uma das reportagens
falava sobre o “promissor mercado do sofrimento”, apontando o nivelamento
superficial que se instalava entre o velar e o desvelar: “escondendo o
rosto e revelando peças típicas do sadomasoquismo – o chicote,
a máscara e o espartilho –, Suzana Alves (mencionava) e esvaziava,
simultaneamente, o obscuro universo de fetiche que cercava o sadomasô”.
[4]
Paradoxalmente, Tiazinha, “a delicada sadomasoquista”, a esta altura,
ocupava um lugar no imaginário de nove entre dez adolescentes, sendo
reproduzida nos objetos infantis os mais diversos. Comentava Luís Fernando
Veríssimo: “o Brasil conseguiu outra façanha inédita
no mundo: inventou o sadomasoquismo sem maldade”.
[5] Aludia Veríssimo a traço da cultura brasileira
que separa o símbolo ou talvez, melhor, o signo de seu referente, sugerindo
uma tendência fetichista de nossa cultura, ou seja, fazer circular significantes
vazios de forma sacralizada.
Recentemente, em sintonia, com a publicização da vida privada,
com o show da realidade em que se transforma o cotidiano, a pornografia ocupa
um crescente espaço como demonstram títulos de livros recentes
como Os florais perversos de Madame de Sade, de Ruth Barros, Marcos Gomes e
Heloisa Campos ou O alfabeto da devassa, de Luiz Roberto Nascimento Silva, ambos
da Editora Rocco.
Na atualidade, os diversos tons da sexualidade se misturam sempre mais com a
diversidade de apelos dos novos suportes midiáticos. Depois do “lesbian
chic”, das conotações homoeróticas e do vale-tudo
sexual na comunicação das marcas, nos últimos 10 anos,
que novos imaginários e sexo pode investir? Em outras palavras, quais
os comportamentos que informam novas tendências no mais atemporal dos
prazeres humanos, ao lado da alimentação? Investigando sobre o
tema, a última revista ViewPoint (www.view-publications.com) lança
o “new burlesque”, tendência guarda-chuva, sintoma da “idade
do excesso” com um forte perfume decadentista. No coquetel contemporâneo,
a revista identifica um exercício do sexo que resgata o divertimento,
a emoção e o (verdadeiro) prazer dos sentidos. Ao invés
de pornografia, o “show off”. Sinais dessa nova sensibilidade aparecem
em alguns sites
[6].
Seguindo esta linha mais sutil, canal que até bem pouco tempo atrás
era discriminado dentro da própria Globosat (empresa da Globo que o empacota)
e que até hoje não tem seu logotipo no site da programadora, o
Sexy Hot virou “cult” e foi parar na academia. Sua equipe, composta
majoritariamente por mulheres, usa “filtros de gênero” e persegue
cotidianamente essa sintonia fina entre a busca da excitação de
uns e os limites do aceitável e do gosto médio das mulheres. O
caso do Sexy Hot é interessante. Há um programa voltado para a
mulher, o “Boa de Cama”, que não usa termos agressivos, como
“cachorra”, comenta a socióloga Bianca Freire-Medeiros. Segundo
ela, a mulher o consome como “preliminar” do ato sexual com o parceiro,
preferindo, filmes com “conteúdo”, que tenham história
e não apenas genitálias.
[7]
Por outro lado, histórias em quadrinhos são lançadas em
formato pornô, reproduzindo as famosas “Tijuana-Bibles”, publicadas
ilegalmente nos Estados Unidos entre 30 e 50 e resgatando os famosos catecismos
de sexo explícito de Carlos Zéfiro. Por exemplo, o espinafre do
velho marinheiro Popeye, quem diria, dá força descomunal a outras
partes do corpo, além de braços e pernas, agindo como um precursor
do Viagra.
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Nos museus e nos quadrinhos
Estatueta de cerâmica nepalense
Museu Erótico de Madri.
extraído de O Globo, 15/02/2001
Gullivera
de Milo Manara
extraído de Folha de São Paulo, 10/04/2006
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Uma série de quatro documentários sobre o sexo no cinema brasileiro
entre as décadas de 70 e 80 (a comédia erótica, a pornochanchada
e os filmes de sexo explícito) será produzida pelo Canal Brasil
tendo em vista o sucesso da temática junto ao público do programa
“Como era gostoso meu cinema”, exibido no Canal a partir de 0h30m.
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A cena pornô
O ator David Crdoso, no galpão do seu sítio.
extraído de Folha de São Paulo, 15/01/2006
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A discussão das fronteiras entre pornografia e erotismo, normalidade
e abjeção, prossegue. Confusões entre as áreas evoluem
de forma inacreditável com o auxílio das novas tecnologias. Morte
e pornografia viram manchete quando soldados americanos enviam fotos de cadáveres
iraquianos a sites de conteúdos explícitos, obtendo acesso gratuito
ao material pornográfico especializado em fotos eróticas amadoras.
Comenta o correspondente especial, Dorrit Harazim, que não se tem notícias
de escambo semelhante em guerras passadas.
A civilização ocidental se desenvolveu a partir da dicotomia do
mesmo e do diferente, procurou uma verdade transcendental que balizasse seus
referentes, garantindo uma epistemologia fundada nos princípios de perfeição,
estabilidade, permanência, unidade e racionalidade. A partir de tal modelo,
construiu-se um corpo ideal em oposição a um corpo monstruoso
ou abjeto, uma sexualidade normal vs a pornografia.
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Nus
Anita Malfatti
Academia VIII, 1916.
Alair Gomes
detalhe de Tripítico praia nº 25, 1985.
extraídos de "Erotica. Os sentidos na arte.", 2005
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A situação certamente vai se distanciando da época em que
havia grande preocupação em classificar o pornográfico
pela classe dominante no controle de outros grupos. A pornografia parece ter
sido, sobretudo, a partir do século XIX, conceito usado “para monitorar
e rotular a conduta moral de determinados setores da população”
para evitar que se distraíssem das obrigações pátrias
perdendo a razão, a objetividade e a disciplina
[8].
A nomeação do monstro ou do abjeto era um poderoso aliado do que Foucault chamou
de sociedade panóptica, na qual comportamentos polimorfos eram extraídos do
corpo dos homens mediante múltiplos dispositivos de poder. Apontar a monstruosidade
no outro aliviava a ameaça interna que é co-estruturante do homem, sua finitude,
sua imanência.
[9]
Paradoxalmente, no contemporâneo, não se tem medo da pornografia e ela é assumida
como estandarte por inúmeras pós-feministas que contam em detalhes, sobretudo
em “blogs”, suas vidas sexuais. É como se a pornografia fosse uma espécie de
fachada sem fundo, aparências que deslizam e se afastam do segredo e da transgressão
erótica.
Efeitos eróticos e pornográficos na literatura
O sujeito vem perdendo, hoje, seu “pathos” autoritário, sua
referencialidade, estabilidade e controle sobre o objeto, assumindo a etimologia
de “subjectum”, assujeitado.
Diminui, sensivelmente, a distância ótima que facultava o discernimento,
a classificação e os expurgos efetuados pelos mecanismos da consciência.
A tradição filosófica racionalista entra definitivamente
em crise com autores como Foucault, Derrida, Deleuze que radicalizaram as tarefas
realizadas por Freud, Nietzsche e Marx. O descentramento do sujeito, sua sobredeterminação,
sua complexidade são discutidos.
[10] Ora, como bem acentua Henri-Pierre Jeudy
[11], a partir de Nietzsche, o corpo pensa na imanência
mais radical e a representação desta atividade pela consciência
corresponde apenas a uma pequena razão, mais grosseira que o pensamento
necessário ao nosso organismo. O corpo como irrepresentável impõe,
para além de nossa consciência e a despeito dela, sua própria
razão expressa, por vezes, em signos e sintomas julgados patológicos,
abjetos. É na linha desta perda de controle da subjetividade cartesiana,
construída com tanto apreço, que buscamos pensar o pornográfico
na literatura paralelamente a publicidade estilo pornô na sociedade do
espetáculo.
Em seu artigo sobre a imaginação pornográfica, Susan Sontag
[12] fala de três aspectos considerados a propósito
do tema: a visão sócio-histórica, a questão psico-sexual
e o enfoque artístico. A autora busca livrar o registro artístico
da condenação moral de que foi alvo como o provaram processos
judiciais contra as obras de James Joyce, D. H. Lawrence, Nelson Rodrigues ou
Rubem Fonseca, questionando as justificativas anglo-americanas sobre a diferença
de construção e codificação da literatura erótica
em relação à pornográfica. Esta última seria
mais objetiva, visando a excitação do leitor, seria gratuita e
descontextuada, descuidada com a linguagem, meramente instrumental implicando
desprezo pela relação entre pessoas, atenta às transações
infatigáveis e imotivadas de órgãos despersonalizados.
Ora, tais “defeitos estéticos” podem eventualmente funcionar
como recurso determinante da coerência literária no diálogo
com o contexto de determinada época.
Literatura e pornografia não são antitéticas e a matéria
da arte é a variedade de formas de consciência propostas. A escala
humana da “conduta normal” parece mal colocada quando se aplica
à arte. Um dos meios de fascinação do artista contemporâneo
é avançar na dialética do ultraje. O artista moderno é
um “corretor da loucura” já que sua autoridade dependerá
da consciência do público. Tal arte não pode ser realista
e, na realidade, aproxima-se da ficção científica. A pornografia
seria um dos ramos da literatura – ao lado da ficção científica
– voltados para a desorientação e o deslocamento psíquico.
Por outro lado, o uso de obsessões sexuais como tema da literatura assemelha-se
ao uso de um tema literário cuja validade bem poucas pessoas contestariam:
as obsessões religiosas.
A Sacher-Masoch desagradaria ver seu romance Vênus de peles integrando
um quadro de sexualidade patológica, justamente porque, conforme ressaltou
Deleuze
[13], sua obra discutia a possibilidade de transcender o humano,
sua contingência, por meio do desvelamento artístico. O processo
compreendia lentidão, silêncio, concentração, características
comuns à arte e ao erotismo.
Contra a velocidade, como forma de êxtase presenteada pela revolução
técnica, Kundera, por sua vez, opôs a lentidão e seu valor
erótico. É sugestiva passagem em que se refere a uma jovem americana
que discursa sobre a liberação sexual, repetindo a palavra “orgasmo”
43 vezes. Comenta o autor: “o culto do orgasmo: o utilitarismo puritano
projetado na vida sexual; a eficácia contra o ócio [...]”
[14]. As pessoas, segundo ele, na sua maioria desconhecem
o encantamento. Empobrecem de tanto falar, de se ativar. Desdenha-se o esforço
que vem de dentro, a esperança das metamorfoses e da espera.
[15]
Autores como Sade, Bataille e outros, trabalham a fronteira do erotismo com
a vida e a morte. O pensamento trágico de Bataille aponta as ilusões
do humanismo numa estética que pretende descer ao inesgotável
segredo do corpo. Sade é fonte de inspiração.
Nesta linha, é importante pensar o corpo fantasmático, proposto
por Freud, contra as interpretações biológico-comportamentais.
O corpo é linguagem atravessada por fantasmas e constituído, basicamente,
por uma sexualidade auto-erótica que, posteriormente e secundariamente,
cria a ficção de uma unidade, um ideal de “eu”. Corpo
é desejo que inclui mesmo aqueles contra a auto-preservação.
Eros é pulsão de vida e de morte, e assim foi pensado na literatura
erótica.
A literatura que se desdobra no eixo do erotismo, assim como no da abjeção
pornográfica, articula um ir além do normalizado, do real, do
estereotipado e do crível e desafia as fronteiras com a matéria,
a animalidade e o artifício, como bem sublinha Eliane Robert Moraes
[16]. Para João Silvério Trevisan
[17], a literatura é a arte do desequilíbrio sempre renovado.
Os materiais das obras pornográficas tidas como literatura são,
precisamente, uma das formas extremas de consciência humana. Sem dúvida,
muitas pessoas concordariam que a consciência sexualmente obcecada pode,
em princípio, ingressar na literatura como forma de arte. Mas, em seguida,
elas comumente acrescentam uma cláusula ao acordo, que na prática
acaba por anulá-lo. Exigem que o autor tenha a adequada “distância”
de suas obsessões para que possam considerá-las literatura. Tal
padrão é mera hipocrisia, revelando, mais uma vez, que os valores
usualmente aplicados à pornografia são, afinal, os pertencentes
à psiquiatria e aos estudos sociais, mais que à arte.
[18]
O que faz de uma obra de pornografia parte da história da arte, ao invés
de pura escória, não é a distância, a superposição
de uma consciência mais conformável à da realidade comum
sobre a “consciência desordenada” do eroticamente obcecado.
Em vez disso, é a originalidade, a integridade, a autenticidade e o poder
dessa própria consciência insana.
[19]
O importante na literatura é, certamente, sua estruturação simbólica, sua literariedade.
É ela que transforma as cenas detalhadas de perversão sexual da
História
do olho, de Georges Bataille
[20], em exemplo máximo de literatura erótica.
Eliane Robert Moraes, em prefácio à tradução brasileira
[21], comenta que a objetividade da narrativa contrasta
com o caráter insólito das fantasias, criando correspondências cósmicas e uma
sucessão de metáforas inesperadas do olho que se desdobram em cenário fantástico.
A propósito da relação entre desejo, escrita e visual, Massimo Canevacci
[22] fala de uma eróptica em que a racionalidade do
olhar se transforma em “tornar-se olho”. “O olho, em seu fazer-se
olhar, não tem nada de natural, contudo ele se desloca para novas interzonas
fluidas – colíricas – de “comunicacionalidade”
fetichista. O olho não é mais apenas o instrumento sensorial do
“voyeur”, mas órgão reflexivo que se torna ele mesmo
fetiche”. O autor sublinha a importância do olho participante, erotizado,
absorvedor e narra o percurso do olho discriminante ao olho destronado de seu
poder espiritual, em direção ao olho contaminado, liberado da
civilidade de seu poder purificador e metafísico. Bataille
[23] e Bellmer
[24] são alguns dos autores por meio dos quais Canevacci pensa
a multiplicidade, o polissensorial do ir além do corpo. Por outro lado, critica
Deleuze & Guattari
[25]: quando em Mil platos, enrijecem as categorias das chamadas
“perversões”, em suas várias tipologias corpóreas:
masoquista, drogado, paranóico etc. Na sua ótica, CsO não
é a multiplicidade do eu: é a sua subtração zeradora.
“O CsO destrói qualquer significante/significado, subjetividade,
organismo”.
[26]
A pornografia faria parte de recursos que visam a explorar a dinâmica
corpo/mente, dominação/minoria, consciente/inconsciente, inscreve-se
num quadro de apropriação/desapropriação corporal.
O corpo e seus vários eus, ainda segundo Canevacci, constróem
uma eróptica como percepção dilatada pelo desejo que percorre
o inédito, o obscuro, o marginal, costura carne e espírito.
[27]
O segredo erótico
Na introdução ao livro
Intimidades [28], composto por dez contos eróticos de escritoras
brasileiras e portuguesas, Luisa Coelho reflete sobre a relação
erotismo, pornografia e literatura. Obviamente, apontando para a variação
dos conceitos no decorrer da história, a organizadora da coletânea
considera pornográfico o discurso em que a descrição das
partes do corpo, do ato sexual, bem como o intuito explícito de excitar
um terceiro é o objetivo maior da narrativa, esvaziando a sexualidade
e seus mistérios. Seria pornográfica, em sua opinião, a
representação de uma pulsão primária a-subjetiva,
imbuída de uma violência sobre outra pessoa, campo de exercício
de poder. É a sexualidade expurgada do erotismo que, por sua vez, mistura
instinto e fantasia, interdito e prazer. Já aí fica subentendido
o universo mais amplo e enigmático do erotismo. Conclui a autora que
os contos apresentados se inscrevem nesta linha.
Em Intimidades, autoras já consagradas dão ao sexo um tratamento
erótico/amoroso onde o termo revelação parece recorrente
nas muitas narrativas que, trabalhando a memória desvelam segredos antigos,
fortes, profundos, de pregnância mortal por vezes. As estratégias
da pornografia sem serem predominantes freqüentam os textos. A lógica
parece ser a do segredo que é desvelado no embate com as palavras. Seria
interessante contrapor esse universo de sedução, mistério
e tom menor, à publicidade dada ao sexo na obra de autoras como Clarah
Averbuck, Lolita Pille, cujos universos estariam mais próximos do pornográfico,
do apelativo e, talvez, não literário. “Reality Shows”,
entretenimento para “voyeurs” da sociedade “écran”?
Somente um exame atento de cada obra poderia decidir sobre a questão.
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Desconstrução e games
Niki de Saint Phalle
"La Mariée", 1963.
extraído de "Big Bang. Destruction et création
dans l'art du xx siècle", 2006.
Dançarinas virtuais em casa noturna de Second Life.
extraído de Folha de São Paulo, 15/02/2006
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Esta dúvida sobre o valor literário da sexualidade narrada não
paira sobre os textos da coletânea acima referida. As narrativas com títulos
sutis são muito bem estruturadas, não pecam por excesso, nomeiam
com precisão afetiva as emoções que preparam e atravessam
o encontro amoroso bem como a memória deste, freqüentemente, indelével.
A contextuação é variada, indo do mais cotidiano a alusões
ao cenário político, da cultura erudita a cheiros nauseabundos
que atraem: “havia outro cheiro, característico, excluído
da literatura por razões misteriosas e que até a mim custa a dizer:
a sangue”. (Rita Ferro – O segredo de chiffon, p. 145). A lembrança
de desejos perversos infantis, paixões maduras na ponta de uma arma,
(Nélida Piñon – O revólver da paixão), amores
brutos entre paredes esburacadas de quartos de pensão, são aguçados
por contrastes onde reina, soberana, a paixão fatal. O perigo e o interdito
são escalados entre golpes e transes: “talvez para morrer eu precise
do amor e da família. Mas para acabar de viver, só preciso de
ti, desta febre azul a que os outros chamam só sexo”. (Inês
Pedrosa – Só sexo, p. 66).
Uma escrita pornográfico-política
A propósito do filme de Pasolini,
Salo ou les Cent Vingt Journées de Sodome,
livremente inspirado em Sade, Vincent Borel
[29] comenta como o cineasta opera uma inversão radical
interditando ao espectador toda a possibilidade de identificação
com o que é mostrado. Nesta linha, a literatura de Dalton Trevisan parece
ilustrar um uso político das estratégias pornográficas.
Se, usualmente, a obra pornô é realista e quase redundante em seu
desejo de atender ao seu público, Dalton Trevisan faz justamente o contrário,
quando retira qualquer excesso de sentido e mesmo o subtrai do leitor, na linha
que poderíamos, na pista de Adorno, chamar de arte crítica, ao
contrário das estratégias da indústria cultural na sua
ânsia de preencher expectativas. Nesse sentido, ele efetua uma desconstrução
do imaginário burguês com sua técnica que coloca em cena
personagens desviantes do corpo e do sexo glorioso. São desempregados,
bêbados, velhos e todo o tipo de desconformidade, apresentadas de forma
grotesca, nada apolínea. A desconstrução dos mitos burgueses
se dá, justamente, pela atribuição da fala mítica
burguesa a personagens, a significantes que, pela inadequação
a tais valores, levam-nos a curto-circuitalos. A fala do poder perde seu suporte.
A figura do Perverso Polimorfo e sua sexualidade infantil, de pulsões
parciais e descontroladas parece dominar a obra de Dalton Trevisan. O Perverso
Polimorfo representa o deboche, a anarquia, a falta de seriedade e decência,
a incapacidade de amar, a ausência de valores espirituais mais nobres,
os desregramentos do desejo louco, a violação inconseqüente
de qualquer ordem estabelecida, a irreverência pelas tradições,
o desrespeito pelo passado, pelos amigos, pela família, a promiscuidade,
o arbítrio, a inconstância, a traição, o oportunismo.
É o aventureiro sem pátria e sem história.
A incidência de comportamentos perversos indiciam a rebelião contra
a submissão da sexualidade à ordem da procriação
e contra as instituições que garantem essa ordem? Excluindo ou
impedindo a procriação, as práticas perversas representariam
uma oposição à continuidade da cadeia de reprodução
e, por conseguinte, da dominação paterna – uma tentativa
para impedir o reaparecimento do pai, em todos os níveis de sua representação?
[30] A A obra do autor não se deixa capturar por nenhuma
dialética simplista que silencie a multiplicidade de forças em
jogo. Não há as figuras subjetivas típicas da vítima
e do algoz, avessos especulares de uma mesma lógica.
O livro “Pico na veia” mantém a linha do autor, sempre mais
telegráfico, com traços expressionistas e, vez por outra, poéticos.
A tônica é a metonímia que se articula perfeitamente com
o mundo fragmentário e mesmo compulsivo descrito pelo autor. É
a parte pelo todo, bem longe de qualquer totalidade, como afirma em conto sumário:
“Um bom conto é um pico certeiro na veia”.
[31]
Fundamental é a exploração do grotesco, a mistura e profanação de espaços e
toda sorte de perversão imersas numa naturalidade provinciana desculpabilizada
que não parece ter acesso ao simbólico.
“
Gorda grotesca de coxa grossa/mestra
no embuste doutora na fraude/famosa cafetina do talento alheio/galinha pesteada
que come os olhos dos pintainhos/falsa loira cavadora de louros/bicha cabeluda
onde toca espirram verrugas negras/toupeira cevada nas larvas da traição/entre
a vassoura e o chinelo corre maldita corre/ó barata leprosa de botinha e liga
roxa”.
[32]
O tratamento que dá ao sadomasoquismo é carregado de anticlímax, quebrando desta
forma o contrato deste tipo de perversão tal qual descrito por Sacher-Masoch.
– Ergue a blusa.
– ...
– Baixa a calcinha.
– ...
– Fica de joelho.
– Pede perdão, sua...
– Ai, não. E o chicotinho, pô? Esqueceu? De novo, João?[33]
A fala final da personagem feminina denuncia o não cumprimento do pacto
sadomasoquista e quebra qualquer identificação do leitor com a
situação.
Mário Perniola
[34] chama atenção para o fato de que Bataille
a certa altura de seus escritos critica uma certa transcendência e positividade
atribuída as posturas do surrealista Breton. Em Bataille temos a negatividade
pura, o irremediavelmente baixo do comportamento humano, sem qualquer aposta
de redenção. Tal parece ser a postura do autor Dalton Trevisan
que não se inscreve nem na sofisticação da literatura dita
erótica, nem nos objetivos da pornografia cultivada pela indústria
cultural.
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Sugestões eróticas
Gravura japonesa.
autor não identificado.
extraído de Jornal do Brasil, 30/09/2000.
Propaganda ellus verão/2006.
extraído de Trip setembro/2006
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O interessante na obra é a ambigüidade do ponto de vista que oscila
entre um distanciamento crítico e uma simpatia por tais seres transgressores
“no fundo de cada filho de família dorme um vampiro”. Se
predomina a transcrição de diálogos sem narrador, por vezes
utiliza a primeira pessoa. “Ai ser a liga roxa que aperta a carne fosforescente
de brancura. Ai, o sapato que machuca o pé. E sapato ser esmagado pela
dona do pezinho, e morrer gemendo. Como um gato”.
[35]
Enfocando a pornografia como conhecimento, subjetivação incorporada,
só podemos voltar ao início de nosso texto e, com Jabour e Rita
Lee, filosofar: pornografia é isto, erotismo é aquilo. E coisa
e tal... E tal e coisa...
Nízia Villaça
– Professora Titular da Escola de Comunicação da UFRJ, Pesquisadora do CNPq,
Coordenadora do Grupo Ethos. Autora, entre outros livros, Em nome do corpo,
Ed. Rocco, 1998 (co-autoria com Fred Góes); Em pauta: corpos, globalização
e novas tecnologias, Mauad, 2000; Impresso eletrônico. Mauad, 2002
e organizadora de O novo luxo. Ed. Anhembi/Morumbi, 2006 ; e Plugados
na moda. Ed. Anhembi/Morumbi, 2006.
NOTAS
[1] Dictionnaire de la pornographie. Philippe di Folco
(org.); préface de Jean-Calude Carrière. Paris: PUF, 2005. Sobre a temática
ver também: OGIEN, Ruwen. Penser la pornographie. Paris: PUF, 2003 e
MARZANO, Michela. La pornographie ou l’épuisement du désir. Paris: Buchet-Chastel,
2003.
[2] KÉCHICHIAN, Patrick. “Penser la pornographie”. In: Le Monde,
11 de novembre de 2005. p. 8.
[3] Folha de S. Paulo, Primeiro caderno, 14 de novembro
de 2005, p. A 12.
[4] Jornal do Brasil, 21 de fevereiro de 1999, Caderno
Cidade, p. 25.
[5] Veríssimo, Luís Fernando. O Globo, 25 de fevereiro
de 1999, p. 7.
[6] www.diesel.com
e www.satyros.com.br.
[7] CASTRO, Daniel. “Canal de sexo virou “cult”, diz socióloga”.
In: Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, 17 de outubro de 2005, p. E
6.
[8] FREIRE, João. “Prazeres desprezados: a pornografia, seus consumidores
e seus retratores”. In: Lugar Comum: estudos de mídia, cultura e democracia.
n. 12, setembro-dezembro, 2000. pp. 65-86.
[9] SILVA, Tomas Tadeu da. (Org.) Pedagogia dos monstros: os
prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica,
2000. p. 46.
[10] DELEUZE, Gilles. “À propos de... Différence et Répétition”.
In: Sciences Humaines, Hors-Série Spécial nº 3, mai-juin, 2005. p. 79.
[11] JEUDY, Henri-Pierre. “O corpo da moda intelectual”. Texto
mimeo, a ser publicado em janeiro de 2006 no livro Plugados na moda.
São Paulo: Anhembi Morumbi.
[12] SONTAG, Susan. “A imaginação pornográfica”. In: A vontade
radical. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
[13] DELEUZE, Gilles. Apresentação de Sacher-Masoch: o frio e
o cruel. Com o texto integral de A Vênus de peles; tradução Jorge Bastos.
Rio de Janeiro: Taurus, 1983.
[14] KUNDERA, Milan. La Lenteur. Paris: Gallimard, 1994.
p. 11.
[15] KUNDERA, Milan. Apud, VILLAÇA, Nízia. “O sadomasoquismo
em dois tempos”. In: Lugar comum, nº 12. Setembro-dezembro 2000. pp.
51-63.
[16] MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível. São Paulo:
Iluminuras, 2002.
[17] TREVISAN, João Silvério. Pedaço de mim. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
[18] SONTAG, Susan. Op., cit. p. 51
[19] Idem, ibidem. p. 52.
[20] BATAILLE, Georges. História do olho; tradução Eliane
Robert Moraes. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
[21] MORAES, Eliane Robert. “Um olho sem rosto”. Introdução a
BATAILLE, Georges. História do olho.
[22] massimo.canevacci@fastwebnet.ir
[23] BATAILLE, Georges. História do olho. São Paulo: Cosac
& Naify, 2003.
[24] BELLMER, Hans. Anatomia dell’immagine. Milão: Adelphi,
2001.
[25] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platos: capitalismo
e esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34, 2004.
[26] CANEVACCI, Massimo. Op. cit.
[27] Ver Klossowski Pierre. “La messe de Georges Bataille”.
In: La chair et l’esprit. Art press 121.Paris: Baudoin Lebon,
mars 1988.
[28] Intimidades (organizadora) Luisa Coelho. Rio de
Janeiro: Record, 2005.
[29] BOREL, Vincent. Le Monde, 11 de novembro de 2005,
p. 8.
[30] VILLAÇA, Nízia. Cemitério de mitos:
uma leitura de Dalton Trevisan. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984. p.
50.
[31] TREVISAN, Dalton. “Conto 3”. In: Pico na
Veia. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 9.
[32] Idem, ibidem.. “Conto 148”. p. 177.
[33] Idem, ibidem. “Conto 11”. p. 17.
[34] PERNIOLA, Mário. L’instant Éternel:
Bataille et la pensée de la marginalité; tradução
François Pelletier. Collection “Sociologies au quotidien”,
dirigée par Michel Maffesoli. Paris: Meridiens/Anthropos, 1982.
[35] TREVISAN, Dalton. O vampiro de Curitiba. 4 ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973. (90. p. 5).