Em 2003, convidada pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM -, iniciei um projeto de oficina de fotografia artesanal na Maré integrado ao Programa de Criança Petrobras. Desde o início, optei por utilizar a técnica pinhole por resumir os princípios básicos da fotografia, trabalhando-os de forma extremamente lúdica, desde a confecção das câmeras até o momento de revelação dos negativos. O pinhole ou "furo de agulha" é um processo fotográfico sem lentes, onde qualquer objeto pode ser transformado em uma câmera fotográfica. Construímos nossas câmeras a partir de latas recicladas.
Ao final do segundo semestre de 2004, os alunos Amanda Paiva, Angélica Paulo Silva, Deyvid Ferreira, Fagner França, Felipe Oliveira de Lima e Renato Nascimento, demonstraram interesse em dar continuidade ao trabalho. Propus então ao CEASM que continuássemos a oficina em 2005 somente com esses seis alunos. Desta forma surgiu o grupo “Mão na Lata”. A continuidade da oficina com um número menor de integrantes possibilitou-nos o aprofundamento em algumas questões relativas ao olhar e à construção do discurso visual.
Em 2006, Leila Name, da Editora Nova Fronteira, entrou em contato com o trabalho do grupo. Convencida da força estética e narrativa desse trabalho, apresentou-nos o desafio de construirmos um livro, a ser lançado na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), recontando uma história em seu universo e possibilidades.
Essa era uma tarefa nova para todos nós. Descobrimos juntos a pluralidade das histórias em A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, autor homenageado na FLIP 2006. Traçamos o projeto de estudo: a Bahia, o autor, o mundo lúdico de Quincas, as aproximações e afastamentos com os nossos mundos. Foram várias as sessões de leitura e escrita para fixação da história. O processo não foi nada fácil, visto que o estímulo ao hábito da leitura nessa idade e no país é muito pequeno. A partir dessa primeira dificuldade decidimos fazer todo o processo de forma coletiva.
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua trata das rupturas possíveis ao longo da vida, da busca pela liberdade, da superação ou subversão de um destino esperado, previsto. O mar, destino ansiado pelo personagem, e o estado permanente de embriaguez como metáforas dessas múltiplas possibilidades na vida foram o nosso norte para a produção das imagens. O universo onírico e embriagado que perpassa a narração dos eventos finais da vida de Quincas encontra sua tradução perfeita na plástica produzida pelas imagens feitas a partir da lata.
O roteiro de viagem foi baseado nos lugares citados por Jorge Amado. Tentamos imaginar em cada lugar como seria o ponto de vista de Quincas. A propensão do personagem criado por Jorge Amado para o sonho, para o delírio. Sua decisão de abandonar família e emprego para viver a vida que escolheu. A recriação de sua própria morte, subvertendo todas as expectativas, trocando os sete palmos de terra pelo infinito, pela imensidão do mar, num encontro derradeiro com a própria vida. Tudo isso tem muitos pontos em comum com a experiência vivida e com os limites rompidos por Amanda, Angélica, Deyvid, Fagner, Felipe e Renato. O livro Mão Lata e Berro Dágua e, é a afirmação máxima disso.
Convido a todos a passearem pelo universo de Jorge Amado, de Quincas e do Mão na lata. Boa Viagem.









