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Dados do autor
Cultura e consciência: a “função
1 ” do Racionais
MC`s
1- INTRODUÇÃO
Ainda existem discordâncias quanto aos conceitos de raça
e etnia. De uma maneira abrangente, poderíamos dizer
que tais termos foram moldados a partir da nomeação
do diferente. A dificuldade de apreensão da diferença,
ou da diferença não-catalogada, das culturas ditas
minoritárias, é uma constante em práticas
conservadoras e/ou colonialistas. Segundo Lívio Sansone
2 , no Brasil: “Se a identidade
étnica não é entendida como essencial,
é preciso concebê-la como um processo, afetado
pela história e pelas circunstâncias contemporâneas
e tanto pela dinâmica local como pela global.”
E, hoje, as Culturas Oficiais e os próprios veículos
de comunicação de massa ainda apresentam dificuldades
ao se relacionarem com as culturas chamadas periféricas.
A inserção das minorias independentes no sistema
de representação simbólico-cultural na
sociedade há de ser feita através da crítica
e requer uma prática que privilegie o papel constitutivo
da diferença na formação cultural de uma
comunidade. Assim sendo, o papel da chamada cultura de massas
como veículo das dispersas vozes sociais é um
fator de importância fundamental em nossa forma de pensar
os discursos dispersos na sociedade. Vejamos algumas ponderações
do professor Muniz Sodré 3:
Da sociedade global das nações
ricas excluíram-se os povos das sociedades colonizadas.
O movimento de integração (...) é excludente
em termos de economia e política. Mas também de
cultura: ao perder a singularidade de sua diferenciação
e reduzir-se às constantes repetitivas de sua experiência,
a cultura perde a vitalidade do encontro com o outro e de regeneração
de si mesma.
O processo de marginalização da cultura é
um filtro ideológico já gasto, mas ainda muito
eficiente, porém, os novos meios estão aí,
as informações burlam sistemas de vigilância
e guetização, circulam. Se temos um histórico
elitista, excludente e colonialista, sabemos hoje das potencialidades
das ditas culturas minoritárias e suas manifestações
artísticas. Vamos citar dois exemplos datados de como
a mídia oficial – no caso dois jornais de grande
circulação – pode ser tendenciosa, ou melhor,
preconceituosa. No primeiro texto, o autor se refere a um processo
ambíguo de abrasileiramento ou latino-americanização
como uma maneira de assunção da barbárie
ibérica novomundista, ou seja, de distanciamento do paradigma
saudável, através da contaminação
das ondas caribenhas que vêm do norte do país.
Há a enumeração das características
negativas que parecem apoderar-se de um paradigma utópico
mineiro-britânico, o que, inclusive, embranquece civilizadamente
o nosso Machado de Assis. Vejamos:
Aos poucos o Brasil vai se tornando mais
uma grande república do Caribe, outro México,
uma inchada e paciente Jamaica ou Guatemala de dimensões
continentais. Vem do Norte uma crescente e irresistível
onda que vai lambendo o país, tomando de assalto sua
cultura, sua política. (...) Estaria nascendo, enfim,
um novo Brasil mais brasileiro, vale dizer, mais latrino-americano,
cucaracho, caliente, orgulhoso e assumidamente negróide,
cubano (...) A mineiridade, o humor quase britânico (civilizadíssimo)
de Drummond e Machado já eram (...) Dois Brasis: um país,
digamos, cone sul (...) e outro caribenho (...)4
O segundo fragmento trata de uma demonstração
dos nossos governantes de seu equivocado populismo, quando deixam
de tratar de um assunto moderno, civilizado, em troca de um
apoio a uma digna representante da barbárie afro-brasileira.
É interessante notar o aspecto evolucionista na abordagem
da diferença. Partindo da máxima de que o Brasil
é um país de contrastes, e utilizando um behaviorismo
conservador, o articulista traça uma antítese
entre uma tradição pré-civilizatória
e a informatizada modernidade latente.
O Brasil é um país de contrastes.
Enquanto diplomatas do Itamarati pretendiam explicar aos americanos
do Departamento de Estado como funcionava a reserva de mercado
de informática, políticos ilustres (...) reuniram-se
num ato público impressionante: o enterro de Mãe
Menininha do Gantois (...) era a mais famosa sacerdotisa de
cultos espíritas de origem africana (...) A importância
exagerada dada a uma sacerdotisa de cultos afro-brasileiros
é a evidência mais chocante de que não basta
ao Brasil ser catalogado como a oitava maior economia do mundo,
se o País ainda está preso a hábitos culturais
arraigadamente tribais (...) Enquanto o mundo lá fora
desperta para o futuro, continuamos aqui presos a conceitos
que datam de antes da existência da civilização5.
Sem entrar no mérito da discussão dos objetivos
dos textos, já que temos fragmentos, é importante
notar o nível de autodepreciação nos argumentos
apresentados, e se digo que é um processo auto-referente
é porque o autor põe em questão a ideia
de homogeneização já tão fora de
propósito nos anos 80, e mais ainda hoje no chamado mundo
globalizado. Sete anos depois, o mesmo jornal é envolvido
na discussão acerca de uma campanha publicitária
sobre o lançamento do novo, bonito e moderno projeto
gráfico de seu Caderno 2. No filme publicitário,
um reconhecido ator branco faz elogios à beleza do periódico
e compara com a forma gráfica do “outro”
jornal e ergue uma folha com a foto de Tião Macalé,
ator negro, sem dentes, de programas humorísticos (Nojento!!!).
Sobre o veículo, os exemplos demonstram sua “linha
editorial”, mas quanto ao pretenso discurso isento da
propaganda, o texto mostra como ele vai lidar com esse tipo
de ridicularização, ou estigmatização,
de uma diferença que é a identidade de muitos.
Segundo Mario Vítor Santos:
Sabe-se de algumas peças publicitárias
(...) caracterizam-se por apelar aos preconceitos adormecidos,
explorar com “habilidade” e sutileza seu potencial
de despertar empatia (...) se o comercial do “Estadão”
fosse veiculado nos EUA, por exemplo, o “Estadão”,
a agência e até o ator teriam dificuldades políticas
e comerciais. A tolerância da sociedade brasileira é
tal que um jornal de expressão chega a julgar que um
anúncio desse tipo possa contribuir para sua imagem.6
Acreditamos que, passados os anos, o discurso “politicamente
correto” afeta os meios de comunicação.
Pretendem-se cotas para negros nas universidades e nas novelas
televisivas, políticas de reparação são
discutidas, os negros inseridos no mercado, hoje, já
são considerados uma fatia importante do bolo. Porém,
na prática das relações sociais, parece-nos
que o preconceito continua presente. Vejamos: os jovens atores
(negros) do filme Cidade de Deus foram acusados de vândalos
e expulsos de um shopping, em São Paulo, quando operavam
uma máquina de banco. Sabemos o quanto a sociedade brasileira
delegou aos negros somente representações artísticas
tidas como aquém da produção de elevado
valor simbólico. O compositor Carlos Cachaça,
fundador da escola de samba Estação Primeira de
Mangueira, dá seu testemunho.
Antigamente tinha a censura do Getúlio
Vargas, o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda. Eu fiz
o samba campeão de 1933 e disse (...) que era muito temeroso
sair com aquele samba que falava de Castro Alves, Olavo Bilac
e Gonçalves Dias. A polícia não ia gostar
(...) Naquela época era muita ousadia a negrada contar
a história do Brasil em samba (...) era até motivo
de ganhar porrada.7
Nos anos 40, a revista Cultura Política, elogiava as
ações do governo, através do DIP. Os sambas
associados à malandragem eram execrados, a linguagem,
as gírias - a desvalorização do trabalho
- eram tidas como exemplos de uma prática poética
popular que ia contra as ideias trabalhistas de Getúlio
Vargas. Nas rádios, maior meio de difusão da música
popular na época, a prática da censura e a imposição
de letras ideologicamente condizentes com a política
eram procedimentos que tentavam inibir a índole popular
que sempre, ironicamente, questiona as normas de condutas sociais
impostas:
No Brasil, a Divisão de Rádio
do Departamento de Imprensa Propaganda vem realizando, sem desfalecimentos,
uma obra digna de encômios. Proíbe o lançamento
das composições que, aproveitando a gíria
corruptora da linguagem nacional, fazem o estúpido elogio
da malandragem. E, não querendo limitar a sua ação
ao campo da censura, distribui pelas estações
dos Estados gravações de música fina, com
noticiário de interesse coletivo.8
Se em outras partes, o racismo tem um histórico arianista
que diz que as relações entre raças são
condenáveis, baseando-se no axioma de que a mistura de
raças é pior que os malefícios causados
pelas sub-raças isoladas, no Brasil tal postura convive
com a forma do racismo hierarquizado étnica e socialmente.
Um samba, composto por Haroldo Barbosa e Janet de Almeida nos
anos 40, brinca com os males causados pelo samba, que afligem
tanto à Madame:
Madame diz que a raça não
melhora
Que a vida piora por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba, coitado, devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de cor
Madame diz que o samba democrata
É música barata sem nenhum valor
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra quê discutir com Madame?
A ironia da letra é a resposta a uma visão eurocêntrica,
aristocrática (a Madame), conservadora e excludente.
A Madame não pode gostar da inserção no
clima democrático do samba: mistura de raças e
cor e, consequentemente, mistura social e, logicamente, execra
a cachaça irmã. Assim, ironicamente se revela
o movimento de troca e simbiose – perniciosos –
contidas no espaço simbólico do samba. Nos últimos
decênios do século passado, a partir da década
de 70, uma reação à composição
ideológica da cultura branca surge, no rastro dos movimentos
afirmativos norte-americanos, e, principalmente, através
do movimento black power. Em 1988, nos festejos em “comemoração”
aos 100 anos da Lei Áurea, a escola de samba Unidos de
Vila Isabel venceu o desfile com o enredo Kizomba: festa da
raça, idealizado por Martinho da Vila. O samba-enredo,
composto por Jonas, Rodolpho e Luiz Carlos da Vila, traz o afro-profano
como força geradora e veículo da festa-mensagem,
faz-se enquanto grito afirmativo e desejo que reivindica o fenômeno
Palmares e a figura de Zumbi como propulsores da Liberdade,
conceito acima das leis dos homens. A festa (Nossa kizomba)
é nossa Constituição – era o ano
da Assembleia Nacional Constituinte. Os valores ancestrais,
forças de deuses são postos em cena, jogo de cintura,
cultura, bravura, sublimação daquilo que poderia
ser anedótico ou grotesco, segundo a tradição
excludente brasileira.
E é como fruto da exclusão e logicamente como
busca de espaço afirmativo que vai se constituindo o
movimento Hip Hop brasileiro e o RAP, herdeiro dos cantos falados
por jamaicanos e americanos dos bairros pobres, surge como um
movimento estético popular que se desenvolveu, ganhou
a mídia americana e, consequentemente, o mundo. Surge
saído da precariedade, do pouco, utilizando velhos toca-discos
que são transformados em produtores de ritmos sobre as
quais epicamente constituem-se rimas, frases e histórias.
A grande mídia brasileira tardou a dar importância
à produção de jovens negros, com suas “letras”
gigantescas e simples, que tratavam de temas comuns à
população das periferias das grandes cidades.
Aí surgem os Racionais MC’s 9
que, mesmo sem tocar nas rádios populares, lotavam galpões
e centros comunitários e que, em 1997, conseguem a proeza
de vender em torno de 500.000 cópias (originais e piratas)
de um disco independente. Segundo Regina Novaes, em seu artigo
Hip-Hop: o que há de novo:
Há muito que investigar para saber como e por que
a periferia tornou-se um produto altamente vendável.
O depoimento da antropóloga Marta Jardim é instigante.
Ela fala de um contexto em que os jovens das periferias das
grandes cidades também se tornam criadores de moda e
estilo incorporados por muitos jovens de classe média.
Não são estilos que buscam diluir a condição
social periférica com uma roupa insuspeita do centro.
Ao contrário, acentuam os traços socialmente associados
à marginalidade, fazendo da roupa uma espécie
de denúncia, de caricatura da imagem associada à
periferia. Certamente, a diferença, imagens e falas fora
do lugar, têm valor comercial no mercado.
E é como fruto desse mundo/mercado, saída das
frestas sociais, que surge a palavra poética de jovens
de periferia que (por estilo) sorriem pouco, falam com a linguagem
cifrada provinda de penitenciárias e favelas, e que reivindicam
bens de consumo questionando a ética conservadora antiga
do “mais vale ser mendigo que ladrão”. Porém,
a própria relação com o “mercado”
é questionada. A postura político/ideológica
os faz esquivos, reticentes. As aparições em TVs
são raríssimas, e há o episódio
da saída de uma gravadora multinacional em que um integrante
da banda foi questionado sobre a oferta em dinheiro oferecida
e recusada: “Você sabe de quanto dinheiro estamos
falando.” “Sei, mas não quero”. Sem
falsos purismos, há algo de diferente, estética
e eticamente falando10 . Acreditamos que
o movimento Hip Hop e especificamente, o RAP brasileiro seriam
exemplos daquilo que hoje se discute: a absorção
de modelos culturais globais juntamente com a incorporação
de temáticas e práticas locais. Assim sendo, alguns
grupos, mesmo utilizando formas muito parecidas com as norte-americanas,
essencialmente tratam de assuntos típicos de nossas sociedades
e, além de tudo, incorporam posturas políticas
próprias.
Porém, o que fundamentalmente nos interessa é
como vozes periféricas, palavras proferidas por jovens
negros conseguem, pouco a pouco, burlar uma das maiores formas
de exclusão social, principalmente nas nossas sociedades
urbanas constituídas de cidades partidas: o estigma 11.
Sabemos que o termo estigma compõe-se numa duplicidade
de sentidos potencializadores da exclusão daquele que
é desacreditável e desacreditado. Porém,
muitos Manos e Minas estão ligados, ouvem as mensagens
provindas de vozes que lhes parecem familiares, em maior ou
menor grau.
É ilustrativo um fato veiculado na mídia impressa
quando das eleições para presidência, em
que o então candidato à reeleição
Fernando Henrique Cardoso teria comentado sobre uma foto do
então adversário Lula junto aos integrantes do
grupo de RAP: de que não entendia o porquê de uma
foto de um candidato ao lado de “jovens com ares de marginais”12
. O sociólogo, que também se autoproclamou como
“tendo um pé na cozinha”, ignorava que aqueles
jovens com aparência de marginais eram, essencialmente,
a voz de mais de “cem mil manos”, representavam
a exteriorização dos anseios, dúvidas e
críticas de uma parcela importante do eleitorado, ou
melhor, do voto tão desejado
Como vozes de estigmatizados conseguem romper barreiras e redefinir
sujeitos emissores de discursos que pulam muros que tão
fortemente separam ideias e visões de mundo? Temos conhecimento
das barreiras impostas a discursos que teimam em manter uma
essencialidade utópica. Pois tal busca utópica
e, para muitos, anacrônica, de pureza e a consciência
de ser um produto rentável, porém independente,
a princípio afastou esse tipo de produção
dos meios de comunicação. Porém, a força
das histórias cantadas pelos rapazes criou seu público,
redefiniu parâmetros básicos da indústria
cultural.
2 - A FALA
Uma apreciação completa das dimensões
estéticas de um rap exigiria não só que
o escutássemos, mas que também o dançássemos,
sentindo seus ritmos em movimento. (Richard Shusterman)
Vamos agora pensar analiticamente o RAP dos Racionais MC`s
através apenas da poesia feita palavra escrita, o que
representa mais que um risco, pois parte-se já de um
pressuposto parcial que, inegavelmente, transforma uma manifestação
complexa em texto. O RAP é fundamentalmente uma forma
de estetização do real na qual à polifonia
discursiva somam-se efeitos sonoros, rítmicos e as vozes,
com suas entonações e formas expressivas provindas
da fala. A palavra cantada ou canto falado do RAP possui, por
si só, efeitos significativos que expandem e realizam
o texto através de outras possibilidades que revigoram
performaticamente os vocábulos. O RAP é palimpsesto,
há camadas significativas a serem descobertas e posteriormente
assimiladas para que, num conjunto em que forças expressivas
irradiam possibilidades em ondas de diversas camadas, os fragmentos
de sonoridades múltiplas produzam algo em que as partes
signifiquem o todo.
Outro problema pode ser pensado como um agravante: como interpretar
textos orais que brotam de poetas pouco escolarizados? Com que
ferramentas podemos trabalhar? Se o aparato conceitual acadêmico
é moldado para pensar manifestações poéticas
tradicionais, cultas, como podemos encarar a produção
popular e massiva produzida por artistas periféricos
de um país periférico como o Brasil? Tal problemática
foi, de certa forma, abolida pelos chamados Estudos Culturais,
mas o ranço acadêmico ainda perdura. Na pesquisa
deparamos com um bom número de trabalhos que abordam
o RAP, mas, comumente, por via das Ciências Sociais e,
em menor, número, pela Análise do Discurso. Aqui
pensamos, de forma transdisciplinar, abordar o RAP como fenômeno
literário, mas também como produto da cultura
de massa e como manifestação cultural na qual
o estético e o político dialogam. O RAP trabalha
a palavra e, dessa forma, já emerge com um potencial
de possibilidades interpretativas e analíticas inerentes
ao próprio ser do discurso, Borges já disse que
não há palavras simples, pois todas postulam o
Universo, cujo atributo maior é a complexidade. O RAP,
além de “apresentar um desafio às condições
artísticas”, apresenta-se como um desafio duplo,
pois também desafia uma outra condição:
é poesia que deseja ter uma participação
ativa dentro dos espaços socioculturais. Como pondera
Shusterman 13:
Devemos sentir o poder artístico e
estético de uma obra impressionar nossos sentidos e nossa
inteligência. (...) Mas a justificação teórica
pode ajudar a criar este espaço e ampliar os limites
da arte pela assimilação de formas antes rejeitadas
na categoria honorável da arte. Uma estratégia
incontestável para tal assimilação é
mostrar que, apesar do evidente afastamento em relação
às convenções estabelecidas, uma forma
expressiva ainda atende aos critérios mais decisivos
para garantir o reconhecimento de sua legitimidade artística
ou estética.
Entendemos que pontes entre o RAP e a crítica literária
e cultural é possível. Enquanto expressão
poética performática, essa manifestação
estética popular contemporânea é digna de
um olhar atento no qual suas possibilidades expressivas e suas
carências ou virtudes formais e estilísticas possam
ser analisadas a partir de diversos campos teóricos do
saber. A própria constituição da poética
do RAP é baseada num ethos no qual o posicionamento discursivo
cria personas ficcionais tão próximas dum real
pleno da periculosidade que tanto amedronta. A caracterização
de uma poética bélica, juntamente ao fato de se
assumirem como “guerreiros da selva de pedra”, já
nos traz uma forma de compreensão do real que só
pode ser considerada como um processo de estetização
do mesmo, ainda que, fundamentalmente, pautado pela experiência
da violência. Insistir numa conexão arte e vida
pode parecer um disparate se tomarmos como base as doutrinas
de não-interferência de uma certa pós-modernidade.
Mas o movimento Hip Hop se espalhou pelo mundo, provocou intervenções
na música pop mundial e, fundamentalmente, em muitos
casos, manteve aceso o facho, pois pensa em trabalhar consciências
a partir da palavra e das atitudes. Diz o próprio Mano
Brown: “Eu não sou artista. Artista faz arte, eu
faço arma, sou terrorista.” A frase, radical, utópica,
revela a ideia da posse de um poder que a palavra comporta que
pode parecer risível aos espíritos pós-utópicos
com seus ares blasé. Para Shusterman 14,
ocorre uma aproximação entre a visão e
prática do RAP e o pragmatismo:
A teoria da catarse, de Aristóteles,
embora focada na piedade e no medo, apresenta a solução
estética padrão: a arte é valiosa porque
permite que emoções perigosas, contudo gratificantes,
sejam desfrutadas, mas depois exorcizadas por expressá-las
em mundo seguro, pois fictício, de mimese; um reino claramente
distinto do real. Aristóteles, mesmo defendendo a arte,
junta-se a Sócrates, Platão e à principal
tradição da estética que opõe arte
à vida real e procura mantê-la em um reino à
parte. Pragmatismo e a estética do RAP não podem
aceitar essa solução, uma vez que insistimos na
profunda conexão da arte com a vida, seu uso como instrumento
para a construção da ética e do estilo
de vida de uma pessoa, um meio de engajamento político
para aumentar a consciência e promover mais liberdade.
Luiz Tatit, situando historicamente o aparecimento do RAP no
Brasil, após o rock dos anos 80, revela uma relação
interessante entre forma e função social da música
popular, vinculando o primeiro à orfandade que vitimou
a juventude, traçando o caminho para a abertura de outras
possibilidades dialógicas entre a música popular
brasileira e a música pop norte-americana:
Enquanto isso, o espaço de rebeldia
da juventude excluída, órfã do rock de
“atitude”, começa a se recompor em torno
de um canto que radicalmente eliminava as durações
vocálicas próprias da face melódica da
canção, anunciando assim um rompimento com as
formas de expressar lamúrias e desventuras amorosas.
Nem passional, portanto, nem propriamente temático, esse
canto recuperava a entoação pura, não pelo
breque do samba nacional, mas pelo break da cultura hip hop
oriunda de Nova York. Na verdade, as articulações
entrecortadas e ritmadas do rap brasileiro inauguravam uma outra
via de aproximação com a sonoridade norte-americana:
em vez da influência pop habitual, mantida desde os tempos
de Frank Sinatra, agora na exposição crua de toda
canção popular: a fala.15
Dessa forma, ou seja, privilegiando o que se fala no RAP, podemos
então abordar essa manifestação poética
popular que possui ancestrais antigos nas formulações
expressivas do homem. Os narradores benjaminianos aqui vêm
travestidos de experiências vivenciadas na luta urbana
e inclusive afirmam: “Eu ontem era caça e hoje,
pá! Sou o predador” (Otus 500). Sua fala é
plena de autoridade. Aqui, então, será privilegiada
a palavra oral, transformada em signo para que assim possamos,
de alguma forma, apreendê-la, mesmo com todas as ressalvas
expostas. Mas a palavra oralizada, potencializada tecnologicamente,
aqui possui um “alcance social” e, mesmo privada
de seus outros atributos perfomáticos, possui ainda,
em nosso entendimento, uma força comunicativa que desvela
interessantes revisões da realidade. Como observa Paul
Zumthor: “habituados que somos, nos estudos literários,
a só tratar do escrito, somos levados a retirar, da forma
global da obra performatizada, o texto e nos concentrar nele.”
Concordamos, mas note-se, porém, que aqui lidamos não
com o escrito, mas com o transcrito, ou seja, trabalhamos com
palavras que foram proferidas, e aqui utilizamos o verbo proferir
de forma ampla, também em seus sentidos primários
de “estender para diante, exercer publicamente”.
Sabemos que tais palavras só se tornaram notação
gráfica simbólica por obra da própria indústria
e pelos meios de comunicação digitalizados. Diríamos
que o RAP seria um estilo oral performático, mas trataremos
da palavra que, diríamos, brotou letra falada, mediada
agora pela escrita. Resumindo: vamos nos ater no texto e não
na obra, já que, ainda segundo Zumthor, o texto “designa
uma seqüência mais ou menos longa de enunciados,
e a obra seria tudo que é poeticamente comunicado”.
Em uma entrevista recente16 , o escritor/cantor/compositor
Chico Buarque expõe algumas considerações
sobre o fenômeno do RAP no Brasil. Vejamos um trecho da
entrevista:
Folha - Você parece estar descrevendo
um esgotamento histórico...
Chico - A minha geração, que fez aquelas canções
todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música.
Mas o interesse hoje por isso parece pequeno. Por melhor que
seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não
acrescenta grande coisa ao que já foi feito. E há
quem sustente isso: como a ópera, a música lírica,
foi um fenômeno do século 19, talvez a canção,
tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século
20. No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou
essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos
50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo - e pronto.
Se você reparar, a própria bossa nova, o quanto
é popular ainda hoje, travestida, disfarçada,
transformada em drum'n'bass. Essa tendência de compilar
e reciclar os antigos compositores de certa forma abafa o pessoal
novo. Se as pessoas não querem ouvir as músicas
novas dos velhos compositores, por que vão querer ouvir
as músicas novas dos novos compositores? Quando você
vê um fenômeno como o RAP, isso é de certa
forma uma negação da canção tal
como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que
a canção já foi, passou. Estou dizendo
tudo isso e pensando ao mesmo tempo que talvez seja uma certa
defesa diante do desafio de continuar a compor. Tenho muitas
dúvidas a respeito. Às vezes acordo com a tendência
de acreditar nisso, outras não.
Folha - E o RAP? Sem abusar das relações
mecânicas, parece que estamos diante de uma música
que procura dar conta, ou que reage a uma nova configuração
social, muito problemática.
Chico - Eu tenho pouco contato com o RAP. Na verdade, ouço
muito pouca música. O acervo já está completo.
Acho difícil que alguma coisa que eu venha a ouvir vá
me levar por outro caminho. Já tenho meu caminho mais
ou menos traçado. Agora, à distância, eu
acompanho e acho esse fenômeno do RAP muito interessante.
Não só o RAP em si, mas o significado da periferia
se manifestando. Tem uma novidade aí. Isso por toda a
parte, mas no Brasil, que eu conheço melhor, mesmo as
velhas canções de reivindicação
social, as marchinhas de Carnaval meio ingênuas, aquela
história de "lata d'água na cabeça"
etc. e tal, normalmente isso era feito por gente de classe média.
O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas
de samba, mas não havia essa temática social muito
acentuada, essa quase violência nas letras e na forma
que a gente vê no RAP. Esse pessoal junta uma multidão.
Tem algo aí.
Não se sabe se o RAP vem definir uma nova tipologia
artística que substituiria o que se conhece por canção
popular no Brasil, o próprio Chico somente especula sobre
a questão, mas é notório que, além
das temáticas, o fenômeno apresenta uma nova configuração
do que seriam letras e músicas das canções.
Usando várias espécies de apropriações
de bases sonoras, com suas “letras” quilométricas,
e o estilo mais recitado que cantado – o canto falado
–, o RAP revela-se como caminho de acessibilidade das
populações periféricas das cidades para
uma forma de expressão estética produzida a partir
do próprio lugar. Utilizando-se da tecnologia mais facilmente
disponibilizada atualmente, os pobres incultos estão
dando um salto entre o seu mundo violento e problemático
e o mundo das mídias. O tradicional “versar”
soma-se às possibilidades de corte e colagem de sonoridades
diversas – eletrônicas, além dos tradicionais
vocais – e criação de formas expressivas
próprias. A voz do rapper é a voz poética
que traz um ethos discursivo marcante, que reitera o lugar do
discurso e o faz sensível ao ouvinte decodificador, que
“lê” as palavras proferidas numa ambientação
na qual se mesclam elementos vários, criando um clima
que o insere num mundo representado, que é a simulação
de dados de uma realidade que lhe é familiar. Podemos
tomar como exemplo o início do cd duplo Nada como um
dia após o outro, a faixa introdutória Sou + você.
As primeiras sonoridades são: uma freada de carro, rajadas
de tiros, latidos de cães, mais tiros, som de uma motocicleta
pondo-se em movimento, depois de uma pequena pausa silenciosa,
um galo que canta, som de pássaros, ruído de um
despertador digital, então iniciam-se acordes musicais
e, finalmente, entra o chamamento, através da voz de
Mano Brown, como se iniciassem as transmissões de um
programa radiofônico:
Bença, Mãe
Estamos iniciando nossas transmissões,
essa é a sua rádio Exodus
Vamo acordá, vamo acordá, porque o sol não
espera
demorô, vamo acordá, o tempo não cansa
ontem à noite você pediu, você pediu....
uma oportunidade, mais uma chance,
como Deus é bom, né não nego?
Olha aí, mais um dia todo seu
que céu azul loko hein?
Vamo acordá, vamo acordá
agora vem com a sua cara
sou mais você nessa guerra
a preguiça é inimiga da vitória
o fraco não tem espaço e o covarde morre sem tentar
Não vou te enganar, o bagulho tá doido
ninguém confia em ninguém, nem em você
os inimigos vêm de graça, é a selva de pedra
ela esmaga os humildes demais
você é do tamanho do seu sonho
faz o certo, faz a sua
vamo acordá, vamo acordá
cabeça erguida, olhar sincero
tá com medo de quê?
Nunca foi fácil, junta os seus pedaços e desce
pra arena
mas lembre-se: aconteça o que aconteça
nada como um dia após o outro dia.
Neste RAP introdutório estão presentes, de certa
forma, muitas das temáticas características presentes
na poética dos Racionais: o caráter pedagógico,
a religiosidade como apoio, a exortação ao enfrentamento
positivo da realidade da selva de pedra que esmaga e inferioriza
os “humildes demais”, o chamado para a atividade,
para a luta. Essa poetização energética
e bélica é uma tônica (ou um tônico),
processo de ritualização suburbana (ou periférica)
da realidade, do dia-a-dia. E aqui utilizamos a palavra exortação
em mais de uma acepção, abrindo o campo semântico
que passa por encorajamento, estímulo, incitação,
mas também conselho, advertência, além da
conotação jurídica do termo como “apelo
que o juiz faz aos jurados para que tomem suas decisões
de acordo com a própria consciência e com os ditames
da justiça”. Pois dentro da guerra diária
redefinida na poética dos Racionais é primordial
a ideia de que a consciência (o quarto elemento da cultura
Hip Hop) é um dado fundamental perante os tribunais humanos
e divinos (Em outro RAP - Vida Loka II - está dito que
“O promotor é só um homem, Deus é
o juiz”). Assim sendo, na introdução desse
livro sonoro que é o cd, há a convocação
de um processo de passagem: a saída da passividade sonolenta
para a entrada na atividade guerreira do enfrentamento das vicissitudes.
Esse despertar para um novo dia – Vamo acordá –,
para os ouvintes da Radio Exodus é como um despertar
de atitudes que venham trazer a possibilidade desse utópico
dia solar, depois da noite de tiros que podem retirar de circulação
alguns guerreiros. Um dado então é primordial:
a importância dos relógios, ou seja, da marcação
do tempo, que não é mais o tempo vulgar, mas o
tempo em que se deve acordar – lembro de um esboço
de centro cultural da Cidade de Deus chamado “Acorda crioulo”.
Segundo Shusterman17 , referindo-se ao
RAP dos Estados Unidos:
Certamente as verdades e as realidades que
o hip hop revela não são as verdades transcendentais
e eternas da filosofia tradicional, mas antes fatos mutáveis
do mundo material, histórico e social. Mesmo assim, a
ênfase dada à mudança temporal e à
natureza maleável do real (refletidas nas datações
das músicas de rap e na expressão “saber
que horas são”) representa uma posição
metafísica respeitável, em concordância
com o pragmatismo americano.
Ainda segundo o filósofo, “essa é a noção
é o tema central do disco de Kool Moe Dee, ‘Do
you know what time is it?’, e encontra uma expressão
no vestuário de Flavor Flav, do Public Enemy: um imenso
relógio que ele usa como colar”. Sabendo da admiração
dos integrantes dos Racionais pelo grupo norte-americano, inclusive
fizeram abertura do show do Public Enemy em São Paulo,
podemos inferir que tal filiação temática
faz parte de uma forma de persuasão para que os pretos
e pobres saiam da passividade e comecem a agir, ou seja, é
uma característica filosófica e política
do RAP “socialmente engajado” ao qual o grupo paulista
é filiado. Em outros RAPs a questão da hora, do
despertar para tomar conhecimento dos fatos – independente
da natureza ou do âmbito a que eles se referem –
está presente direta ou indiretamente.
Retomando o discurso poético de Sou + você, notamos
a presença de formas verbais - demorô, iniciando,
(o sol não) espera, (o tempo não) cansa, (agora)
vem - que nos trazem a percepção de ações
que possuem marcada dimensão temporal, tais formas verbais
juntam-se a marcadores temporais – noite, dia, agora,
sol – e definem a temporalidade como intrinsecamente ligada
à pragmática da atividade cotidiana, porém
reafirmada como discurso metafórico que clama aos seus
ouvintes que o agora é o tempo de mudanças e que
o mais importante é a sobrevivência em meio à
“selva triste”...
Segundo Amarino Oliveira de Queiroz :18
A tradição das narrativas orais
e de outras formas poéticas da oralidade, flagradas através
do trabalho desenvolvido por diversos escritores africanos contemporâneos
vem se constituindo, em maior ou menor grau, num dado significativo
que se alia ao processo de elaboração das literaturas
escritas produzidas naquele continente. Tomando-se o exemplo
de alguns países africanos de língua portuguesa,
poderíamos sugerir que a retomada dessa oratura e, conseqüentemente,
sua reelaboração através da palavra fixada
pela escrita ou performatizada pela associação
entre voz, gesto, movimento, encenação e traço,
como ocorre no rap, tem consistido num importante elemento capaz
de viabilizar não apenas uma mais completa assimilação
dessas modalidades expressivas, mas também uma contribuição
efetiva no sentido de afirmar positivamente as identidades culturais
daqueles países. (...)
Segundo o que se depreende do artigo, o tradicional canto falado
dos africanos é um dos pilares fundadores do RAP contemporâneo,
num processo de expansão e de retorno à África,
através da mundialização da cultura Hip
Hop, processo circular de trocas e hibridismos constantes que
veio redefinir parâmetros das chamadas culturas tradicionais,
fundamentalmente por intermédio na cultura massiva:
Em meados dos anos 60 do século passado,
alimentando-se do canto falado da África, o discurso
sobre bases musicais eletrônicas emergidos nos bailes
da periferia de Kingston, Jamaica, amplificou-se, reeditando
o contador/cantador tradicional em outra versão: o toaster.
Este, por sua vez, acabaria por desdobrar-se no DJ e no poeta
rapper dentro da cultura Hip Hop que se aproximava. No início
da década seguinte, o que hoje identificamos como rap
daria um outro salto: a crise econômica no Caribe, desencadeadora
de novo processo diaspórico, faria com que o ritmo &
poesia dos toasters chegasse ao ambiente urbano da metrópole
pós-industrial estadouniudense, ali se infiltrando e
a partir dali de difundindo pelo mundo inteiro, até marcar
presença na África contemporânea.19
Os antecedentes da oralidade na composição do
que chamamos aqui de RAP é um fator preponderante na
sua formação, as relações com práticas
orais tradicionais são tidas como fundamentais na própria
formação do gênero nos guetos20
norte-americanos, assim, provindo da Jamaica, o canto falado,
já presente no reggae tradicional, migrou para os EUA
e ambientou-se numa fusão com outros estilos da black
music. Segundo Goetz :21
Nos Estados Unidos, o hip hop é freqüentemente
mitologizado em termos de uma dureza quase sobrenatural sustentando
o “gangsta RAP” ou um passado ancestral distante
envolvendo o “Griot”, um contador de histórias
das sociedades africanas. Os rappers, supostamente informados
por essa tradição oral africana e vocalizando
os ressentimentos de afro-americanos subalternos, são
transformados em uma autêntica força política
de uma diáspora africana. Além do mais, o hip-hop
é ligado ao destino de afro-americanos que vivem em dificuldade
no cinturão de ócio urbano abandonado por uma
sociedade pós-industrial.
3 - RAP: Negro drama contemporâneo
Há toda uma discussão acerca das verdadeiras
fontes tradicionais do RAP, porém, acreditamos que o
que ocorre é um processo de absorção de
tradições transformadas histórica e geograficamente,
somadas às mutações possibilitadas pela
tecnologia e por particularidades e especificidades culturais
localizadas. Segundo Douglas Kellner :22
O rap também depende de virtuosismo
tecnológico, e o DJ, que manipula os sons eletrônicos,
é parte importante da equipe. Portanto trata-se de uma
forma que combina tradições orais afro-americanas
com sofisticadas modalidades tecnológicas de reprodução
de som. Além disso, os sons do rap muitas vezes são
transgressivos, infringindo as regras de correção
e do discurso aceitável. Trata-se freqüentemente
de sons desordenados, com ruídos de carros de polícia,
helicópteros, tiros, vidros quebrando e agitação
urbana. Os sons do rap são especialmente perturbadores
quando tocados no último volume em espaços públicos,
anunciando que o inimigo está dentro, que a sociedade
está dividida e enfrenta conflitos explosivos.
Um exemplo desses procedimentos que fundem tradição
e contemporaneidade foi dado claramente no filme Sou feia, mas
tô na moda, um documentário de Denise Garcia que
trata, fundamentalmente, do chamado funk sensual produzido por
mulheres, principalmente na Cidade de Deus, Rio de Janeiro.
Ainda que tratando na maior parte do tempo da produção
das mulheres, no filme há mostras do funk mais antigo,
dos anos 80 e 90. Em forma de improviso, numa roda, as pessoas
batem palmas substituindo as percussões eletrônicas
e “mandam” os seus versos. O que se observou foi
que, longe da parafernália tecnológica de bases
e samplers, e sem a presença do produtor, o que havia
era um grupo de jovens – quase todos negros – celebrando
triste, alegre ou ironicamente a vida, cantando sobre situações
coletivas e individuais.
A partir dessa observação e de outras feitas em
contato com funkeiros cariocas (e através do filme Fala,
tu 23 ), notamos a proximidade com o samba
de roda, o jongo, ou as rodas de partido alto, além de
ecos cariocas dos próprios terreiros de umbanda e candomblé.
Embora, para um especialista em música, essas observações
possam parecer demasiadamente simples e reducionistas, o que
se percebeu foi a revitalização de procedimentos
que estão presentes em culturas tradicionais, principalmente
de origem tribal e da qual as populações pobres
em geral são depositárias. No Brasil, a formação
circular de pessoas marcando o ritmo com as mãos, dançando,
lamentando ou celebrando, é forma tradicional de congregação
e essas raízes se fazem presentes como substrato cultural
latente e como forma de manifestação estética,
corporal e ideológica 24. Inclusive
o RAP brasileiro está absorvendo cada vez mais sonoridades
locais, principalmente do samba com suas diferentes cadências.
Como já foi dito, aqui não se está fazendo
um tratado sobre música, não se tem conhecimento
técnico do assunto e nem é nossa intenção.
Porém, sabendo-se do caráter extremamente coletivo
e grupal dessas manifestações e da precariedade
dos meios para produzi-las tecnologicamente, notamos como as
raízes sonoras das comunidades tradicionais estão
presentes, inclusive no próprio RAP. Finalizando essas
considerações acerca das características
mais ou menos essencialistas do RAP, podemos trazer para a discussão
as palavras de Regina Novaes 25, sobre
o movimento Hip Hop, no qual o RAP se insere:
Além do RAP (com seus DJs e MCs) e
do break, há também o grafite26
, compondo a trilogia sagrada de um fenômeno social
que é chamado pelos próprios participantes de
movimento ou cultura hip-hop. Sabe-se que nos EUA há
grupos violentos, financiados pelos traficantes. Mas há
também os grupos de caráter pacífico que
se propõem a substituir a violência das brigas
entre grupos pela competição na música,
na dança e no grafite. No Brasil os grupos que se tornaram
conhecidos são contra as drogas e pregam a paz. Essa
postura favorece conexões entre os grupos do movimento
hip-hop com instâncias governamentais, organizações
não-governamentais e igrejas. (...) O hip-hop não
é, portanto, um movimento orgânico que produz grupos
homogêneos. Ao contrário, existem várias
correntes, linhas e ênfases que os diferenciam em países,
cidades, bairros e estilos, já que a circulação
de bens culturais não se faz nunca em uma direção
unilateral. Assim sendo, a discussão sobre as origens
nunca vai acabar. Essa é uma controvérsia constitutiva
do hip-hop. Na verdade, ao reafirmar ou negar raízes
do passado, os grupos estão se posicionando sobre questões
do presente, estão fazendo escolhas e construindo alianças
e identidades.
O fato dos negros, em suas diferentes etnias,
servirem à colonização como força
de trabalho escravo é um dado fundamental para a introdução
em qualquer assunto relativo à exclusão e ao racismo
no Brasil. Buscando a brevidade, trataremos de alguns pontos
considerados como relevantes para o desenvolvimento das análises,
ou seja, como se instauram o discurso e a prática racistas
na sociedade brasileira.
A primeira observação refere-se ao fato de o tratamento
mais violento dado aos negros escravizados haver ocorrido nas
colônias. Porém, o dado da exclusão se fez
sempre presente. Na sociedade ibérica renascentista,
as práticas excludentes refletem o ideário de
formação da identidade nacional. Segundo escritos
datados dos começos do s. XVI, aos negros deveria ser
assegurada: “una vida soportable y humana”. Mas,
ainda assim, na Espanha, a exclusão legalizada teve de
ser posta em prática; aos negros e gitanos eram reservados
os piores ofícios. Como exemplo, temos o caso de um
moreno que puso
una modestísima escuela de niños en la Laguna,
fue requerido a que mostrase la carta de examen expedida por
los veedores, y el susodicho responsable la no tenía,
por cuya razón, el señor teniente Mayor le notificó
cierre de la escuela y no enseñase muchachos, pena de
que será castigado.27
O texto oficial nos dá informações interessantes:
além da liberdade e cidadania relativas, revela o discurso
humanista que intervém e impede a ação
de um “trabalhador não-qualificado”, o que
ajudaria na manutenção de excluídos não-escolarizados.
Negros poderiam (e deveriam) ser cristãos, mas não
poderiam ser sacerdotes; poderiam (como impedir?) aprender,
mas não estavam legalmente aptos a ensinar. O fato da
exclusão legal, em confronto com a exclusão não-oficial,
será uma constante nas relações inter-raciais
até nossos dias. Para os negros, então: “la
única via de integración total eran las uniones
sucesivas que iban emblanqueciendo su piel”. Na Sevilha
renascentista começa a ser posta em prática a
teoria da mulatização: extinção
natural do negro. Há as etapas do processo, uma tabela
é, cientificamente, elaborada. Tal tabela considera como
“gente blanca” o filho da sexta geração
de mulato que se unisse sempre com branco. Mas o caso se complica
na América com as possibilidades combinatórias
entre “puros” e “mestiços”. No
Brasil, tal teoria de homogeneização sociorracial
desfez-se na modernidade, ou melhor, revestiu-se da capa parda
da pobreza, já citada por Caetano Veloso e redefinida
nos versos dos Racionais: “mais um filho pardo, bastardo
sem pai”. Dada a impossibilidade de absorção
do negro nos modos de produção pós-escravagistas
e da inserção de brancos pobres, surge uma outra
fase de relacionamento inter-racial na América, que se
agravou na América Católica.
Como observa Roberto da Matta, o racismo brasileiro vem de fontes
eruditas que, por sua vez, provinham das teorias evolucionistas
de s. XVII, e toma forma acabada no s. XIX:
como instrumento do imperialismo e como uma justificativa
“natural” para a supremacia dos povos da Europa
Ocidental sobre o resto do mundo (...) Gobineau colocava a tese
de que a sociedade brasileira era inviável porque possuía
uma enorme população mestiça, produto indesejado
e híbrido do cruzamento de brancos, negros e índios.28
As teorias raciais e racistas sempre buscaram apoio nos discursos
e práticas legais, religiosas 29e
científicas. Porém, no Brasil, diferentemente
dos EUA, a hierarquização legalista ibérica,
à qual nos referimos, funciona como no esquema discutido
por Foucault, em que há exclusão dentro do próprio
sistema social. A particularidade do racismo brasileiro –
que se nega internamente, anti-ideológico – nos
traz a figura simbólica da mulatização,
que se desfaz na exclusão. A ideologia social do racismo
brasileiro se renova na crise contemporânea, clímax
e acúmulo de mais uma: a impossibilidade de modernização
neoliberal em confronto com representações sociais
tênues, característica de uma sociedade heterogênea
e centralizadora de riqueza.
Se fizemos essa pequena introdução histórica
de uma evolução das teorias racistas que convivem
com a formação do Brasil, desde a herança
humanista ibérica e das modernas e científicas
teorias modernas, foi para situar o ponto focal neste momento:
a relação entre racismo e violência policial.
Se a violência policial no Brasil é constante contra
a população em geral, o fato se complica tratando-se
de pobres e pretos. Casos de violência associada à
prática do racismo são constantes. A imagem do
negro/pobre estigmatizado como potencial risco à sociedade
é parte integrante de uma visão que, se por um
lado é apoiada pelas estatísticas, por outro sugere
e redefine um caráter lombrosiano 30
que mascara a complexidade de um processo histórico de
exclusão social do qual os negros e seus descendentes
são as maiores vítimas. As formas de estigmatização
dos negros evoluem e se adaptam às próprias revisões
de parâmetros sociais que se redefinem historicamente,
os discursos e visões evoluem, mas as práticas
discriminatórias e racistas persistem como substrato
latente dos indivíduos e da sociedade. Se o discurso
biológico não dá conta, redefinem-se novas
formas de manutenção dos processos estigmatizantes
e excludentes, como afirma Stuart Hall :31
A diferença genética –
o último refúgio das ideologias racistas –
não pode ser usada para distinguir um povo do outro.
A raça é uma categoria discursiva e não
uma categoria biológica. Isto é, ela é
a categoria organizadora daquelas formas de falar, daqueles
sistemas de representação e práticas sociais
(discursos) que utilizam um conjunto frouxo, freqüentemente
pouco específico, de diferenças em termos de características
físicas – cor da pele, textura do cabelo, características
físicas e corporais, etc. – como marcas simbólicas,
a fim de diferenciar socialmente um grupo de outro.
Mas, segundo Milton Santos : 32
No Brasil, onde a cidadania é, geralmente,
mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os
interesses cristalizados, que produziram convicções
escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos,
que não ficam no limite do simbólico, incidindo
sobre os demais aspectos das relações sociais.
Ora, sabemos que a violência da polícia brasileira
é voltada, fundamentalmente, àqueles que historicamente
têm de ser postos em seu devido lugar, e “lugar
de preto é na senzala”, diz um velho dito irônico.
Ou seja, a manutenção dos excluídos em
seus nichos habitacionais – subnormais, confinados e promíscuos,
segundo a definição do geógrafo –
é a tônica de políticas e práticas
sociais cristalizadas, normatizadas ou assumidas por poderes
oficiais e paralelos. Assim, as periferias urbanas brasileiras
apresentam diversas similitudes com os guetos norte-americanos,
habitados por seres humanos que foram etiquetados como underclass,
subcidadãos que sobrevivem em meio à patologização
social e individual. Segundo Wacquant :33
Esse “grupo” pode ser supostamente
identificado como por uma série de características
intimamente interligadas – desordem: uma sexualidade fora
de controle, famílias chefiadas por mulheres, altas taxas
de absenteísmo e reprovação nas escolas,
consumo e tráfico de drogas, além da propensão
ao crime violento, “dependência” persistente
em relação a auxílio público, desemprego
endêmico (devido, de acordo com algumas versões,
à rejeição ao trabalho e à recusa
em ajustar-se às estruturas convencionais da sociedade),
isolamento em áreas com alta densidade de famílias
problemáticas etc.
Ou seja, parece que aqui vemos comprovada a máxima dos
Racionais: “periferia é periferia em qualquer lugar”,
pois as descrições acima, somadas à questão
dos quatro elementos de guetização vistos anteriormente
- preconceito, violência, segregação e discriminação
– reforçam a conceituação do gueto
urbano contemporâneo feito pelo sociólogo francês,
com o agravante de que os benefícios sociais brasileiros
para tal “categoria” é escasso e/ou insuficiente.
Então, no Brasil, com o advento, instituição
e crescimento do tráfico de drogas e a consequente guetização
e assunção belicista desses territórios
o fato se complica, pois assim há o respaldo para o tratamento
dado aos habitantes desses locais marginalizados, estigmatizados,
onde comumente a única relação com o poder
público – salvo a presença de candidatos
em campanha eleitoral – se dá através da
presença de forças policiais que acabam “se
integrando” de maneira conflitante e violenta ao dia-a-dia
de tais comunidades.
Para concluir, partimos então em uma direção
que pretende ser desembocadura para nossa argumentação,
ou seja, como o movimento Hip Hop e, no caso específico,
o RAP dos Racionais MC’s insere-se como forma contemporânea
de questionamento das formas de exclusão e estigmatização
presentes na sociedade brasileira contemporânea, fazendo
parte de um processo de tomada de consciência racial radical:
o RAP transforma pardos em negros. Segundo Munanga (2004) :
34
Os movimentos negros brasileiros contemporâneos,
nascidos na década de 70, retomaram a bandeira de luta
dos movimentos anteriores representados pela Frente Negra, substituindo
o anti-racismo universalista pelo anti-racismo diferencialista.
Sob a influência dos movimentos negros norte-americanos,
eles tentam dar uma redefinição do negro e do
conteúdo da negritude no sentido de incluir neles não
apenas as pessoas fenotipicamente negras, mas sobretudo os mestiços
e descendentes de negros, mesmo aqueles que a ideologia do branqueamento
já teria roubado.
No Brasil, geralmente, o RAP é tido como uma forma essencialista
de expressão artística, nos mesmos modelos, porém
apresentando especificidades que o afastaram do RAP consumido
hoje nos Estados Unidos. Se, no início, as bases, samplers,
sonoridades eram típicas dos EUA, comumente adaptações
de bases de hits da black music, houve também a procura
de outras referências, sendo buscadas inferências
de músicos e ritmos brasileiros, um caso típico
de releitura, movimento de hibridização de fontes
externas a partir da mescla com sonoridades e temáticas
localizadas.35
Pensando especificamente no RAP dos Racionais, trata-se de um
discurso que se pretende prática vital. Para os rapazes
de São Paulo, o RAP não é jogo, é
guerra, e os rappers, conscientes de sua missão, são
considerados guerreiros (várias são as passagens
em que as metáforas bélicas são utilizadas
como confirmação de que existe uma batalha que
está sendo perdida pelos Manos). Sobre o termo Mano,
é interessante notar que é uma forma de aglutinação
fraterna de sujeitos que estão agrupados em um sentido
de autoconsciência de sua função: buscar
os espaços de cidadania negados pelo “sistema”.
Tal categoria seria uma apropriação e ampliação
de um conceito que não já tinha razão de
ser no Brasil: o brother “negro” dos EUA. O Mano
será, então, uma categoria que ultrapassa fronteiras
raciais ou étnicas, porém que é formada,
em sua grande maioria, por descendentes de negros e de migrantes.
Em uma das canções, Negro drama, com seu caráter
autobiográfico, está dito sobre o nascimento do
personagem: “Família brasileira/ dois contra o
mundo/ mãe solteira/ de um promissor vagabundo (...)
O bastardo/ mais um filho pardo/ sem pai”. Ao se assumir
como “pardo”, denominação genérica
dada aos seres híbridos comuns no Brasil, o discurso
rejeita o embate negro x branco. Ao internalizar a nominação
pejorativa daquilo que não é bem definido enquanto
cor da pele, o discurso poético vai agir na direção
que aponta para o Mano, ou seja, para um ser sem cor, fruto
do processo de exclusão social. Embora conscientes de
que a marca epidérmica é fundamental, no RAP dos
Racionais o embate já migrou, o inimigo não é
o sujeito branco – embora ele possa aparecer assim em
diversas situações – mas sim o “sistema”
branco capitalista que empurra para os guetos urbanos 36
toda uma série de pessoas que poderiam ser definidas,
inclusive, como “os brancos quase pretos de tão
pobres”, tão poeticamente pintados por Caetano
Veloso e Gilberto Gil no Rap-lamento Haiti. Porém, nos
RAPs dos Racionais, o fato de possuir a pele escura sempre é
agravante ao problema da estigmatização e consequente
exclusão e vitimação por parte dos organismos
estatais de controle e dos tentáculos do poder –
policiais, seguranças, gerentes de lojas etc. Sabemos,
porém, que o tratamento dado ao negros é diferenciado,
em todos os níveis de relações sociais.
Após análises estatísticas, a professor
Marcelo J. P. Paixão 37,chegou
à seguinte conclusão que, de certa forma, conclui
nossas observações:
O que essa plêiade de indicadores demonstra
é a existência de uma coerência entre dados
no seguinte sentido: i) seja qual for o indicador escolhido
para analisar as desigualdades raciais, em todos eles os negros
encontram-se em uma situação pior que a dos brancos;
ii) seja qual for a região do país, os indicadores
sociais e demográficos dos negros são menos favoráveis
que os indicadores dos brancos; iii) mesmo quando se desagregam
estes dados por gênero, o que se vê é que
os homens brancos estão em melhor situação
que as mulheres brancas, que estão em condições
mais favoráveis que os homens negros, que estão
em uma situação menos grave que as mulheres negras.
Sendo assim, verifica-se que os argumentos de que no Brasil
ser branco ou ser negro é indiferente do ponto de vista
da estratificação social não são
verdadeiros, ou, antes, pode-se argumentar que o problema social
brasileiro possui um evidente e nítido componente social.
O RAP dos Racionais, fundamentalmente nos últimos dois
trabalhos (Sobrevivendo no Inferno, de 1997 e Nada como um dia
após o outro, de 2003) passou dos resquícios de
uma visão racial com ecos do movimento norte-americano,
para uma visão local interessante, em que o fundamental
é a interação do pobre favelado a um processo
de conscientização e busca da cidadania. Segundo
Maria Rita Kehl : 38
Alguma coisa mudou na atitude de Brown e
seus manos depois de Sobrevivendo no inferno, onde eles demarcavam
o território do rap excluindo os "filhinhos de papai"
que se faziam passar por malandros escutando os Racionais MC`s
no rádio do carro. Em 2002, os músicos mais populares
do hip hop paulista entenderam que a potência de seu "rythm
and poetry" ultrapassa barreira de classe e de raça.
Ninguém consegue impedir que os jovens do Jardim América
39 se identifiquem com o discurso produzido
pelos moradores do Jardim Ângela.
Porém, o sabemos, como nos fala Kebengele Munanga, que
o processo de “branqueamento físico da sociedade
brasileira” fracassou e os abismos sociais estigmatizantes
perduram, se os playboys assumem roupas, gestos e falas, o que
se pode fazer? Mas no próprio cd está incluída
a sintomática Da ponte pra cá, um enfático
e irônico grito de exclusão dos playboys.
quero sua irmã e seu relógio
Teg Heuar
Um conto se pá, da pra catar
ir para a quebrada e gastar antes do galo cantar
Um triplex para a coroa e o que malandro quer
não só desfilar de Nike no pé
Ô, vem com a minha cara e o din-din do seu pai
mas no role com nóis “ce” não vai
Nóis aqui vocês lá, cada um no seu lugar.
Entendeu? Se a vida é assim, tem culpa eu
Brown continua afirmando que não tem nada pra dizer
para “os classe média”. Enquanto produto
da indústria cultural, o RAP pode ser consumido por quem
quer que seja, mas sabemos que o público-alvo, termo
que aqui cai muito bem, continua sendo os moradores das periferias
das cidades brasileiras. Como elemento integrante da cultura
Hip Hop, o RAP dos Racionais é estetização
e também parte de um ideário político que
se conjuga com uma série de orientações
que reivindicam direitos e melhorias estruturais e culturais
para as comunidades pobres. A maioria dos shows ocorre ainda
em espaços que não são os destinados aos
pop stars. As aparições na TV escassearam ainda
mais, porém as redes de comunicação se
ampliam e a fala poética que reverbera os anseios de
pretos, pobres, favelados se consolida como uma poética
popular que busca, através da palavra, a conscientização
daqueles que historicamente estiveram sempre à margem
dos mínimos direitos do cidadão.
Vamos agora nos ater mais detalhadamente a um dos RAPs mais
famosos dos Racionais, Negro Drama, que estruturalmente está
dividido em duas partes principais, nas quais duas vozes poéticas
e performáticas falam da dificuldade de sobrevivência
de quem vive entre o sucesso e a lama ou entre a lama e a fama.
Há variações do verso-mote, Negro drama,
que oscila para negro trama, ou sente o drama, algumas aliterações
que enriquecem a sonoridade das rimas. Na letra constam três
gêneros narrativos tradicionais que são negados:
“Não é conto, nem fábula, lenda ou
mito”. E aqui transparece uma característica que
foi sendo depurada na poética dos Racionais. Como afirmou
Mano Brown, no início da carreira as letras produzidas
usavam em maior quantidade de versos, um vocabulário
mais elaborado, técnico, poderíamos dizer, mas
que, segundo o próprio rapper, parecia linguagem de sociólogo.
Em Sobrevivendo no inferno (1997), a oralidade – com gírias,
onomatopéias, referência da linguagem publicitária,
entre outras formas - foi explorada com efeitos surpreendentemente
expressivos, mas também havia a introdução
de referências que ultrapassam o léxico do dia-a-dia
e do gírio (como Cidadão Kane). No disco duplo
de 2003, Nada como um dia após o outro dia, as referências
da cultura letrada aparecem com uma frequência maior,
como as citadas acima (conto, fábula, lenda e mito).
O enunciador poético se declara um Poeta entre o tempo
e a memória, verso que nos remete ao caráter ambíguo
da genética do próprio RAP que possui em sua formação
heranças arcaicas e que se move dentro da temporalidade
histórica do agora. Em Estilo cachorro, irônica
saga de um rolê noturno, o personagem é “pontual
como o Big Ben, quatro anos assim, nem Shakespeare imaginaria
um fim”, ou seja, o “clássico” junta-se
ao popular e ao trivial. Se pensarmos no caráter pedagógico
do RAP dos Racionais, podemos cogitar que tal presença
de referências da cultura “oficial” pode servir
como forma de levar os ouvintes a buscarem o significado e produtividade
de tais referentes na mensagem poética do RAP.
Em Negro Drama nota-se a afirmação discursiva
de que raízes culturais, raciais e ideológicas
seriam mais fortes que o poder dado aos ídolos pops,
posição contrária à aculturação
sofrida, por exemplo, pela personagem descrita no RAP Qual mentira
vou acreditar que se transforma de uma linda negra passista
em uma vaca nazista que condena o tipo e as atitudes de pessoas
de sua mesma origem.
O tema da pressão sofrida pela ambiguidade de ser um
Mano e um artista reconhecido também se faz presente
nos últimos dois trabalhos dos Racionais, tal fato relaciona-se
com todas as implicações relativas às relações
de poder e a “patrulha ideológica” sofrida,
além da também ambígua relação
com o tráfico e o consumo de drogas, pois as letras do
grupo são firmes na crítica à alienação
em todas as suas formas.
Em Negro Drama, a introdução, falada, nos introduz
ao sentido narrativo da história pessoal, ou seja, reivindica
o direito à palavra que possui a verdade, pois é
um discurso poético (ficcional) autenticado pelo seu
emissor. Não se trata de apenas contar mais uma história,
o caso agora é dar um depoimento vital, de um testemunho
que dota, poeticamente, o discurso da verticalização
necessária de uma história vivenciada, daí
o caráter exemplar épico ser trazido através
da tecnologia: o cd traz a voz do gueto para o mundo digital:
tradição e modernidade que criam possibilidades
outras de revisão dos paradigmas da cultura pop.
Na segunda parte do RAP, inicia-se a outra parte da narrativa
poética de uma história que não será
contada por nenhum Forest Gump, pois nesse RAP busca-se a verdade
que “daria um filme”, então a reminiscência
autobiográfica apresenta o personagem e a cena: “Uma
negra, uma criança nos braços, solitária
na floresta de concreto e aço”. Então evidencia-se
a negativa anterior, ou seja, os versos dizem a verdade, não
estamos lidando, ouvintes/leitores, com conto, fábula,
lenda ou mito. Nos versos posteriores, contundentes e perspicazes,
está dito o seguinte:
Eu sou problema de montão
de carnaval a carnaval
Eu vim da selva, sou leão
sou demais pro seu quintal
Problema com escola eu tenho mil, mil fita
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto,
Ginga e fala gíria. Gíria não, dialeto.
Esses versos, de certa forma, propulsionaram nossa pesquisa,
e neles se concentra um tipo de enfrentamento que estimulou,
por exemplo, as observações de Maria Rita Kehl
sobre o possível trânsito entre a mensagem do Capão
e o mundo dos playboys. Porém, acreditamos que a ironia
dessa pequena “vitória” contra o Senhor de
engenho funciona, através da reversibilidade irônica,
como afirmação da ética e da estética
da favela, exemplificada na auto-valorização dos
jovens e da quebrada (o bairro, a favela) que ocorre, por exemplo,
em Da ponte pra cá. Finalizando, há, sabemos,
uma discussão que perpassa o tipo de pesquisa que aqui
se apresenta, ou seja, sobre a qualidade literária do
corpus em questão, debate que evidencia valorações
sobre cultura e arte preferenciais. E aqui apresentamos algo
que é descrito por um de seus autores como som de preto,
sem massagem. Estamos lidando com uma prática discursiva,
performática, estilística, ou seja, poética,
produzida por quem sempre esteve abaixo da linha indelével
que separa e define padrões culturais e delimita espaços
territoriais e simbólicos, ou seja, lidamos com ética
e estética, formas estas conjugadas em algo distinto.
Mas, talvez, para quem o RAP se dirige preferencialmente, ele
seja algo muito maior, seja prática política,
ponte entre Arte e Vida, ou simplesmente alento vital, ou seja,
Ritmo e Poesia.
APÊNDICES
I - Da ponte pra cá
A lua cheia clareia as ruas do capão,
Acima de nós só Deus humilde né não?
né não?
Saúde: plin, mulher e muito som,
Vinho branco para todos um advogado bom
Cof,cof, ah, esse frio tá de fuder,
Terça feira é ruim de role, vou fazer o que
Nunca mudou nem nunca mudará
O cheiro de fogueira vai, perfumando o ar
Mesmo céu, mesmo cep no lado sul do mapa,
Sempre ouvindo um rap para alegrar a rapa
Nas ruas da sul eles me chamam brown,
Maldito,vagabundo, mente criminal
O que toma uma táça de champagne também
curte
Desbaratinado, tubaína, tutti-frutti.
Fanático, melodramático, bom-vivant,
Depósito de mágoa quem esta certo é o saddam,
ham...
Playboy bom é chinês, australiano,
Fala feio e mora longe não me chama de mano
"- e aí brother, hey, uhuuul, " pau no seu
c...aaaíí,
Três vezes seu sofredor odeio todos vocês
Vem de artes marciais que eu vou de sig sauer,
Quero sua irmã e seu relógio tag heuer
Um conto se pá, dá pra catar,
Ir para a quebrada e gastar antes do galo cantar.
Um triplex para a coroa é o que malandro quer,
Não só desfilar de nike no pé
Ô vem com a minha cara e o din-din do seu pai,
Mais no rolé com nóis ?ce? não vai
Nóis aqui, vocês lá, cada um no seu lugar.
Entendeu? se a vida é assim, tem culpa eu?
Se é o crime ou o creme, se não deves não
teme,
As perversa se ouriça e os inimigo treme
E a neblina cobre a estrada de itapecirica...
Sai, Deus é mais, vai morrer para lá zica
Não adianta querer, tem que ser tem que pá,
O mundo é diferente da ponte pra cá
Não adianta querer ser tem que ter para trocar,
O mundo é diferente da ponte pra cá
Outra vez nóis aqui vai vendo,
Lavando o ódio embaixo do sereno
Cada um no seu castelo, cada um na sua função,
Tudo junto, cada qual na sua solidão
Hei, mulher é mato a Mary jane impera,
Dilui a rádio e solta na atmosfera
Faz da quebrada o equilíbrio ecológico,
Distingüe o judas só no psicológico
Hó, filosofia de fumaça analise,
E cada favelado é um universo em crise
Quem não quer brilhar, quem não? mostra quem,
Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém
Quantos caras bom, no auge se afundaram
Por fama
E tá tirando dez de havaiana
E quem não quer chegar de honda preto em banco de
couro,
E ter a caminhada escrita em letras de ouro
A mulher mais linda sensual e atraente,
A pele cor da noite, lisa e reluzente
Andar com quem é mais leal e verdadeiro,
Na vida ou na morte o mais nobre guerreiro
O riso da criança mais triste e carente,
Ouro, diamante, relógio e corrente
Vem minha coroa onde eu sempre quis pôr,
De turbante, chofer uma madame nagô.
Sofrer pra que mais se o mundo jaz do maligno,
Morrer como homem e ter um velório digno
Eu nunca tive bicicleta ou video-game,
Agora eu quero o mundo igual cidadão Kane,
Da ponte pra cá antes de tudo é uma escola,
Minha meta é dez, nove e meio nem rola
Meio ponto a ver, hum e morre um,
Meio certo não existe truta o ditado é comum
Ser humano perfeito, não tem mesmo não,
Procurada viva ou morta a perfeição
Errare humanus est, grego ou troiano,
Latim, tanto faz pra mim: fi de baiano
Mas se tiver calor, quentão no verão,
Ce quer da um rolé no capão daquele jeito,
Mas perde a linha fácil, veste a carapuça,
Esquece estes defeitos no seu jaco de camurça
Jardim Rosana, Três estrela e imbé,
Santa Tereza, valo velho e dom José.
Parque chácara, lídia, vaz,
Fundão muita treta com a Vinícius de Moraes
Refrão
Mas não leve a mal tru, ce não entendeu,
Cada um na sua função, o crime é crime
e eu sou eu.
Antes de tudo eu quero dizer, pra ser sincero
Que eu não pago de quebrada mula ou banca forte.
Eu represento a sul, conheço loco na norte,
No 15 olha o que fala, perus, chicote estrala
Ridículo é ver os malandrão vândalo,
Batendo no peito feio e fazendo escândalo
Deixa ele engordar, deixa se criar bem,
Vai fundo, é com nóis, super star, superman, vai...
Palmas para eles digam hey, digam how,
Novo personagem pro Chico Anísio show
Mas firmão né, se deus quer sem problemas,
Vermes e leões no mesmo ecossistema
Ce é cego doidão? então baixa o farol!
Hei hou, se qué o quê com quem diow?
Tá marcando, não dá pra ver quem é
contra a luz
Um pé de porco ou inimigo que vem de capuz
Hey truta eu tô louco, eu tô vendo miragem,
Um bradesco bem em frente a favela é viagem
De classe "a" da "tam" tomando jb
Ou viajar de blazer pró 92 dp
Viajar de GTI quebra a banca,
Só não pode viajar com os mão branca
Senhor guarda meus irmão nesse horizonte cinzento,
Nesse capão redondo, frio sem sentimento
Os manos é sofrido e fuma um sem dar goela,
É o estilo favela e o respeito por ela
Os moleque tem instinto e ninguém amarela.
Os coxinha cresce o zóio na função e gela
Qual mentira vou acreditar
São apenas dez e meia, tem a noite inteira
Dormir é embaçado, numa sexta-feira
TV é uma merda, prefiro ver a lua
Preto, Edy Rock, Star, a caminho da rua
hã... sei lá vou pruma festa, se pam
se os cara não colar, volto às três da manhã
Tô devagar, tô a cinqüenta por hora,
ouvindo funk do bom, minha trilha sonora.
A polícia cresce o olho, eu quero que se foda
Zona Norte, a bandidagem curte a noite toda.
Eu me formei suspeito profissional,
bacharel pós-graduado em "tomar geral".
Eu tenho um manual com os lugares, horários,
de como dar perdido... ai, caralho..
Prefixo da placa é MY
sentido Jaçanã, Jardim Ebron
Quem é preto como eu já tá ligado qual
é,
Nota Fiscal, RG,polícia no pé
escuta aqui: o primo do cunhado do meu genro é mestiço,
racismo não existe, comigo não tem disso,
é pra sua segurança
Falou, falou, deixa pra lá.
Vou escolher em qual mentira vou acreditar.
Tem que saber mentir, tem que saber lidar
em qual mentira vou acreditar?
A noite é assim mesmo, então... deixa rolar.
Em qual mentira vou acreditar?
Tem que saber mentir, tem que saber lidar.
Em qual mentira vou acreditar?
Pó, que caras chato, o!
Quinze pras Onze,
eu nem fui muito longe e os "home" embaçou.
Revirou os banco, amassou meu boné branco,
sujou minha camisa do Santos.
Eu nem me lembro mais pra onde eu vou.
E agora, que será que ligou
"Espere na atração, eu tô na Zona Sul,
eu chego rapidinho,assinado: Blue".
Pode crer, naquele lado de Santana,
conheço uns lugar, conheço umas fulana.
Juliana? Não. Mariana? Não. Alessandra? Não.
Adriana?
O nome é só um detalhe, o nome é só
um nome.
953... hum, esqueci o telefone.
"Ôrra, demorou, heim?!"
E aí, Blue, como é?
Isso aqui é um inferno, tem uma pá de mulher,
trombei uma pá de gente, uma pá de mano,
tô há quase uma hora te esperando.
Passou uma figura aqui e deu idéia,
disse que te conhece e pá, chama Léa.
Cabelo solto, vestido vermelho,
estrategicamente a um palmo do joelho.
Os caras comentaram o visual,
"oz bi", que tal, pagando o maior pau.
Ninguém falou, ah! ah! mas eu ouvia
meio mundo xingando por telepatia
(filha da puta!).
Economizava meu vocabulário,
não tinha o que falar, falava o necessário
meio assim, é claro, será qual é que é,
truta
é o que não falta, mina filha da puta.
Tudo comigo, confio no meu taco,
versão africana "Don Juan de Marco",
tudo muito bom, tudo muito bem,
sei lá o que é que tem, idéia vai, idéia
vem,
ela era princesa, eu era o plebeu,
quem é mais foda que eu, espelho, espelho meu.
"Tipo Taís de Araújo ou Camila Pitanga?".
Uma mistura. Confesso: fiquei de perna bamba.
Será que ela aceita ir comigo pro baile?
Ou ir pra Zona Sul ter um "Grand Finale"?
Amor com gosto de gueto até às seis da manhã,
me chamar de "meu preto" e me cantar "Djavan".
Ninguém ouviu, mas... puta que pariu!
Em fração de segundos meu castelo caiu!
A mais bonita da escola, rainha, passista,
se transformou numa vaca nazista!
Eu ouvindo James Brown, pá, cheio de pose,
ela pergunto se eu tenho... o quê? Gun's Roses?
Lógico que não! A mina quase histérica,
meteu a mão no rádio e pôs na Transamérica.
Como é que ela falou? Só se liga nessa,
que mina cabulosa, olha só que conversa:
que tinha bronca de neguinho de salão (não...)
que a maioria é maloqueiro e ladrão (aí
não...).
Aí não, mano! Foi por pouco,
Eu já tava pensando em capotar no soco
Disse pra mim não falar gíria com ela,
pra me lembrar que não to na favela.
Bate-boca, maior goela, será que é meia-noite,
já?
A Cinderela virou bruxa do mal.
Me humilhar não vai, vai tirar o caralho
levanta o seu rabo racista e sai!
Eu conheço essa perversa há maior cara
correu a banca toda de uns "pleiba" que cola lá
na área.
Pra mim ela já disse que era solitária
que a família era rígida e autoritária
Tem vergonha de tudo, cheia de complexo
que ainda era cedo pra pensar em sexo
REFRÃO
Ih! Caralho! Olha só quem tá ali?
O que que esse mano tá fazendo aqui?
E aí, esse maluco veio agora comigo,
Ligou, que era até seu amigo,
que morava lá na sul,irmão da Cristiane,
dei um "cavalo" pra ele no Lausane.
Ia levar um recado pra uns parente local
, da Igreja Evangélica Pentecostal.
Desceu do carro acenando a mão
"Na paz do Senhor!".
Ninguém dava atenção.
Bem diferente do estilo dos crentes.
Um bom "jaco" e touca, mas a noite tá quente.
Que barato estranho, só aqui tá escuro.
Justo nesse poste não tem luz de mercúrio.
Passaram vinte fiéis até agora,
dá cinco reais, cumprimenta e sai fora.
Um irmão muito sério, em frente à garagem
outro com a mão na cintura em cima da laje.
De vez em quando a porta abre e um diz:
"tem do preto e do branco?" e coça o nariz.
Isso sim, isso é que é união!
O irmão saiu feliz, sem discriminação!
De lá pra cá veio gritando, rezando:
"Aleluia, as coisas tão melhorando!".
Esse cara é dentista, sei lá...
diz que a firma dele chama "Boca S.A.".
Será material de construção? Vendedor de
pedras?
Lá na zona sulera patrão.
Ih! patrão o caralho! Ele é safado
Fugiu do Valo Velho com os dias contados
A paranóia de fumar era fatal
Arrombava os barracos, saqueava os varal
Bateu na cara do pai de um vagabundo.
Hum... tá fazendo hora extra no mundo
A noite tá boa, a noite tá de barato
mas puta, gambé, pilantra é mato
Tem que saber mentir
tem que saber lidar.
Em qual mentira vou acreditar?
A noite é assim mesmo, então deixa rolar
Em qual mentira vou acreditar?
Negro Drama
NEGRO DRAMA
entre o sucesso e a lama
Dinheiro, problemas, invejas, luxo, fama
NEGRO DRAMA
Cabelo crespo e a pele escura
A ferida, a chaga, à procura da cura
NEGRO DRAMA
Tentar ver e não vê nada
A não ser uma estrela
Longe, meio ofuscada
Sente o drama,
O preço, a cobrança
No amor, no ódio
A insana vingança
NEGRO DRAMA
Eu sei quem trama
E quem tá comigo
O trauma que eu carrego
Pra não ser mais um preto fodido
O drama da cadeia e favela,
Túmulo, sangue, sirene, choros e velas
Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia
que sobrevive em meio às honras e covardias
Periferias, vielas, cortiços
Você deve tá pensando
O que você tem a ver com isso
Desde o início, por ouro e prata
Olha quem morre, então, veja você quem mata
Recebe o mérito a farda que pratica o mal
Me ver pobre, preso ou morto já é cultural
Histórias, registros e escritos
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito
Não foi sempre dito que preto não tem vez
Então, olha o castelo e não
foi você quem fez, Cuzão
Eu sou irmão dos meus truta de batalha
Eu era a carne, agora sou a própria navalha
Tim...Tim...
Um brinde pra mim
Sou exemplo de vitórias,
Trajetos e Glórias
O dinheiro tira um homem da miséria
Mas não pode arrancar de dentro dele a favela
São poucos que entram em campo pra vencer
A alma guarda o que a mente tenta esquecer
Olho pra traz, vejo a estrada que eu trilhei
Mó cota
Quem teve lado a lado e quem só ficou na bota
Entre as frases, fases e várias etapas
Do quem é quem, dos Mano e das Mina fraca
Hum..
NEGRO DRAMA de estilo
Pra ser, se for tem que ser
Se temer é milho
Entre o gatilho e a tempestade
Sempre a provar
Que sou homem e não um covarde
Que Deus me guarde
Pois eu sei que ele não é neutro
Vigia os rico, mas ama os que vêm do gueto
Eu visto preto por dentro e por fora
Guerreiro, Poeta entre o tempo e a memória
Ora, nessa história, vejo o dólar
E vários quilates. Falo pro mano
Que não morra, e também não mate
O Tic Tac
Não espera, veja o ponteiro
Essa estrada é venenosa
E cheia de morteiro
Pesadelo, hum, é um elogio
Pra quem vive na guerra
A paz nunca existiu
Num clima quente
A minha gente soa frio
Vi um Pretinho
Seu caderno era um Fuzil.
NEGRO DRAMA
Crime, futebol, música. Carai!
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um
Forest Gump é mato
Eu prefiro contar uma história real
Vou contar a minha....
Daria um filme
Uma negra e uma criança nos braços
Solitária na floresta de concreto e aço
Veja, olhe outra vez o rosto na multidão
A multidão é um monstro sem rosto e coração
Hey, São Paulo, terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel
Família brasileira, dois contra o mundo
Mãe solteira de um promissor vagabundo
Luz, câmera e ação: gravando a cena vai
O bastardo, mais um filho pardo, sem pai
Hey, Senhor de engenho, eu sei bem quem você é
Sozinho cê num güenta
Sozinho cê num güenta a pé
Cê disse que era bom, e as favela ouviu
Lá também tem uísque e Red Bull
Tênis Nike, Fuzil
Admito, seus carro é bonito
Hé, e eu não sei fazer
Internet, vídeo-cassete, os carro loko
Atrasado eu tô um pouco, sim, tô, eu acho
Só que tem que
seu jogo é sujo e eu não me encaixo
Eu sou problema de montão
de carnaval a carnaval
Eu vim da selva, sou leão
sou demais pro seu quintal
Problema com escola eu tenho mil, mil fita
Inacreditável, mas seu filho me imita
No meio de vocês ele é o mais esperto,
Ginga e fala gíria. Gíria não, dialeto
Esse não é mais seu, hó, subiu
Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu
Nós é isso, aquilo. Quê? Cê não
dizia
Seu filho quer ser preto, rá, que ironia
Cola o pôster do Two-Pac aí
Que tal? Que cê diz?
Sente o negro drama
Vai, tenta ser feliz
Hey, bacana
Quem te fez tão bom assim
O que cê deu, o que cê faz
O que cê fez por mim
Eu recebi seu Tik, quer dizer Kit
De esgoto a céu aberto e parede madeirite
De vergonha eu não morri
Tô firmão, eis-me aqui
Você não, você não passa
Quando o Mar Vermelho abrir
Eu sou o Mano
Homem duro do gueto, Brown, Obá
Aquele loko que não pode errar
Aquele que você odeia amar nesse instante
Pele parda e ouço funk
E de onde vem os diamante?
Da lama
Valeu, mãe
Negro drama
Aí, na época dos barraco de pau lá na pedreira
onde vocês tavam?
o que vocês deram por mim ?
o que vocês fizeram por mim ?
agora tá de olho no dinheiro que eu ganho
agora tá de olho no carro que eu dirijo
demorou, eu quero é mais
eu quero é ter sua alma
aí, o rap fez eu ser o que sou
Ice blue, Edy rock e KL Jay, e toda a família
e toda geração que faz o rap
a geração que revolucionou
a geração que vai revolucionar
anos 90, século 21é desse jeito
aí, você saí do gueto
mas o gueto nunca saí de você, morou, Irmão
você tá dirigindo um carro
o mundo todo tá de olho em você, morou
sabe por quê?
pela sua origem, morou Irmão
é desse jeito que você vive
é o negro drama
eu não li, eu não assisti
eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama
eu sou o fruto do negro drama
aí dona Ana, sem palavra, a senhora é uma rainha,
rainha
mas aí, se tiver que voltar pra favela
eu vou voltar de cabeça erguida
porque assim que é
renascendo das cinzas
firme e forte, guerreiro de fé
Vagabundo nato.
* Jorge Nascimento
formou-se em Letras pela UFRJ, onde cursou graduação,
mestrado e doutorado em Língua Espanhola e Literaturas
Hispânicas. Desde 1993 é professor da Universidade
Federal do Espírito Santo, atuando na graduação
e no mestrado em Estudos Literários, desenvolvendo pesquisas
sobre literatura hispano-americana e brasileira. Atualmente
pesquisa o RAP dos Racionais MC`s e Literatura Marginal.
Contato: jorgelizn@gmail.com
1 Entre o pessoal do RAP, o termo função
é utilizado como trabalho, atividade, “correria”.
2 SANSONE, Lívio. Negritude sem
etnicidade: o local e o global nas relações raciais
e na produção cultural negra no Brasil. Salvador:
EdUFBA, São Paulo: Pallas, 2003. (p.12)
3 SODRÉ, Muniz. Claros e escuros:
identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis:
Vozes, 1999. (p. 22)
4 PEDREIRA, Fernando. In: Jornal do
Brasil 12/05/93.
5 Fantasmas primitivos e superstições
cibernéticas. Editorial de O Estado de S. Paulo, 17/08/86.
6 O “Estado” contra Tião
Macalé. Folha de S. Paulo, 05-09-93.
7 Entrevista concedida a Alexandre Medeiros
e Tim Lopes. Jornal O Dia, 31-01-94.
8 Cit. In: PARANHOS, A. Os desafinados
do samba na cadência do Estado Novo. Revista Nossa História.
Ano 1, n.4, fev., 2004. (p. 21)
9 Formado em 1990, por Mano Brown, Edy
Rock, Ice Blue e KL Jay, o grupo Racionais Mc’s destacou-se
na coletânea "Consciência Black", lançada
pela gravadora Zimbabwe Records, com os sucessos: "Pânico
na Zona Sul" e "Tempos Difíceis". Em 1992,
lançaram seu primeiro LP "Holocausto Urbano"
que vendeu cerca de 50 mil cópias. Nos anos 90 e 91 trabalharam
com shows por toda a capital e interior, receberam o Prêmio
de Melhor Grupo de RAP do Ano e participaram da abertura do
Show do Public Enemy no Ginásio do Ibirapuera. Em 1992
deram um importante passo, e fizeram shows na Febem e deram
palestras para alunos nas escolas públicas. Em 1993,
foram a atração no Teatro das Nações,
com o projeto Música Negra em Ação. O sucesso
total veio com o CD "Raio X do Brasil". Conquistaram
o maior Prêmio da Música Popular Brasileira o "Prêmio
Sharp", Mano Brown ganhou como compositor revelação
com a música "Homem na Estrada". No final de
1997, com seu próprio selo (Cosa Nostra), lançaram
o CD "Sobrevivendo no Inferno", que vendeu mais de
500mil cópias, sem contar os CDS piratas. No ano de 1998,
lançaram dois videoclips "Diário de um Detento"
e "Mágico de Oz". Em agosto do mesmo ano foram
os vencedores do Vídeo Music Brasil, promovido pela MTV,
recebendo os prêmios "Melhor Grupo de Rap" e
"Escolha da Audiência". Em 2003 lançaram
o CD “Nada como um dia depois de outro dia”. (Fonte:
http:// www.capao.com.br)
10 É melhor não aparecer
nestes programas que tiram sarro dos grupos. Não iríamos
vender nosso som para estes caras. Não somos produto,
somos artistas. (Edy Rock, Racionais, Jornal da Tarde, 4/8/98).
11 Os gregos, que tinham bastante conhecimento
de recursos visuais, criaram o termo estigma parar se referirem
a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma
coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de
quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo
e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor
– uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que
devia ser evitada, especialmente em lugares públicos.
(GOFFMAN, I. Estigma. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1975. p.
11).
12 (Revista Isto É, 21 de outubro de 98).
13 SCHUSTERMAN, Richard. Vivendo a arte:
o pensamento pragmatista e a estética popular. São
Paulo: Editora 34, 1998. Trad. Gisela Domschke. (pp. 164-165)
14 SCHUSTERMAN, Richard. Estética
rap: violência e a arte de ficar na real. In: DARBY, Derrick;
SHELBY, Tommie. Hip Hop e a filosofia. São Paulo: Madras,
2006. Trad. Martha Malvezzi Leal. (pp. 68-69)
15 TATIT, Luiz. O século da
canção. Cotia: Ateliê, 2004. (p. 243)
16 A canção, o rap, Tom
e Cuba, segundo Chico. Jornal Folha de S. Paulo, 26/12/04. Disponível
em: http://www.chicobuarque.com.br/texto/entrevistas/entre_fsp_261204c.htm
Idem (p. 160).
Cf. Griots, cantadores e rappers: do fundamento do verbo às
performances da palavra. In: DUARTE, Zileide (org.). Áfricas
de África. Recife: Programa de Pós-graduação
em Letras / UFPE, 2005. (p. 11-12)
17 Idem (p.13)
18 O gueto norte-americano, o único
que veio à luz do outro lado do Atlântico –
os brancos de diversas origens, inclusive judeus, conheceram
apenas bairros étnicos, de recrutamento essencialmente
voluntário e heterogêneo, e que, mesmo miseráveis,
sempre permaneceram abertos para o exterior por meio de pequenos
canais de comunicação com uma sociedade branca
norte-americana compósita -, representa a realização
hiperbólica dessa lógica de dominação
etnorracial imposta por um poder exterior. Nascido nas primeiras
décadas do século passado sob o impulso das grandes
migrações de negros dos estados do Sul, descendentes
de escravos libertos. (WACQUANT, Loïc. As duas faces do
gueto. São Paulo: Boitempo, 2008. Trad. Paulo César
Castanheira. p. 18)
19 OTTMANN, Goetz. Entre a fluidez e
a unidade: o que é local no Hip-Hop brasileiro. Disponível
em http://www.imaginario.com.br/artigo/a0061_a0090/a0085.shtml
20 KELLNER, Douglas. A voz negra: de
Spike Lee ao rap. In: ---. Cultura e mídia. São
Paulo: EDUSC, 2001. Trad. Ivone C. Benedetti. (p. 232)
21 Macarrão, 33 anos, apontador
do jogo do bicho, duas filhas, morador do morro do Zinco e torcedor
do Fluminense. Toghum, 32 anos, vendedor de produtos esotéricos,
budista e morador de Cavalcante. Combatente, 21 anos, moradora
de Vigário Geral, frequentadora da Igreja do Santo Daime
e operadora de telemarketing. Durante 9 meses, entre 2002 e
2003, uma equipe filmou o dia-a-dia destes três cariocas
da Zona Norte, que batalham e sonham em fazer da sua música,
o RAP, o seu ganha-pão. O resultado é uma crônica
composta pelo cotidiano, letras e dramas deste três personagens.
(Sinopse do filme disponível em: http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/fala-tu/fala-tu.htm)
22 Podemos pensar no padre Bartolomé
de las Casas, citado por Borges, que afirmava que era um pecado
escravizar índios, já que havia negros que serviriam
melhor a tal prática.
23 Este artigo está publicado
em Proposta - Revista Trimestral de Debate da FASE, Ano 30.
90: 66-83. Disponível em http://www.redemulher.org.br/generoweb/rnovaes.htm
24 Um quarto elemento é considerado
pelos militantes do movimento é a Consciência.
25 Cit. In: SANTA CRUZ GAMARRA, D. El
negro en iberoamérica. CUADERNOS HISPANOAMERICANOS. Madrid:
n. 451-452., jul.-oct., 1988.
26 MATTA, Roberto da. Relativizando:
uma introdução à antropologia social. Rio
de Janeiro: Rocco, 1990.
27 Podemos pensar no padre Bartolomé
de las Casas, citado por Borges, que afirmava que era um pecado
escravizar índios, já que havia negros que serviriam
melhor a tal prática.
28 Cesare Lombroso foi um professor
universitário e criminologista italiano, nascido a 6
de novembro de 1835, em Verona. Tornou-se mundialmente famoso
por seus estudos e teorias no campo da caracterologia, ou a
relação entre características físicas
e mentais. Lombroso tentou relacionar certas características
físicas, tais como o tamanho da mandíbula, à
psicopatologia criminal, ou a tendência inata de indivíduos
sociopatas e com comportamento criminal. Assim, a abordagem
de Lombroso é descendente direta da frenologia, criada
pelo físico alemão Franz Joseph Gall no começo
do século XIX e estreitamente relacionada a outros campos
da caracterologia e fisiognomia (estudo das propriedades mentais
a partir da fisionomia do indivíduo). Sua teoria foi
cientificamente desacreditada, mas Lombroso tinha em mente chamar
a atenção para a importância de estudos
científicos da mente criminosa, um campo que se tornou
conhecido como antropologia criminal. A principal idéia
de Lombroso foi parcialmente inspirada pelos estudos genéticos
e evolutivos no final do século XIX, e propõe
que certos criminosos têm evidências físicas
de um "atavismo" (reaparição de características
que foram apresentadas somente em ascendentes distantes) de
tipo hereditário, reminiscente de estágios mais
primitivos da evolução humana. Estas anomalias,
denominadas de estigmas por Lombroso, poderiam ser expressadas
em termos de formas anormais ou dimensões do crânio
e mandíbula, assimetrias na face, etc, mas também
de outras partes do corpo. Posteriormente, estas associações
foram consideradas altamente inconsistentes ou completamente
inexistentes, e as teorias baseadas na causa ambiental da criminalidade
se tornaram dominantes. (Disponível em: http://www.cerebromente.org.br)
29 HALL, Stuart. A identidade cultural
na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. (p.
62-63)
30 Ser negro no Brasil hoje. Disponível
em: http://www.ige.unicamp.br/~lmelgaco/santos.htm
31 Idem p. 44.
32 MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo
a mestiçagem no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica,
2004 (p.137).
33 O rap entrou no Brasil repertório
da mídia nacional hoje, ou em 1998 pelo menos, depois
de dez anos de presença na periferia. (...) O gosto dos
playboys pelo rap dos Racionais, seu consumo tolerante de discursos
antagônicos a seus interesses e a conseqüente integração
do rap à cultura de massa hegemônica seria a atitude
de quem se encontra em posição de superioridade
hierárquica. (...) Enquanto os Racionais MCs fazem poesia
a partir de sua percepção do racismo branco e
da resistência negra, colocam em cena e – mais importante
– em música, a onipresença muda no Brasil
da opressão e da violência. A popularidade repentina
do rap brasileiro, sua participação na cultura
hegemônica brasileira, talvez seja a evidência de
uma nova elaboração da autoconsciência brasileira.
Essa reelaboração enfatiza o fato de que a segurança
física está ao alcance de poucos, e a guerra civil
de baixa intensidade entre os “excluídos”
e as autoridades, envolvendo traficantes de drogas e a polícia,
é parte permanente do cenário contemporâneo.
Junto com a cordialidade que parece imperar nas relações
entre grupos díspares e antagônicos e que permite
que a classe média afirme carinhosamente “nóis
sofre, mas nóis goza”, outros valores sociais regem
o cotidianos. O consumo branco do rap implica, portanto, uma
nova apreensão das relações sociorraciais.
Em suma, esse consumo é uma forma de afirmar a violência
das relações sociais; siginifica identificar-se
com uma espécie de música de protesto. Música
de protesto nos lembra os anos 60 e aí podemos afirmar
(...) que o consumo do rap pela classe média branca talvez
seja um substituto para a ação. Mas Francisco
Carlos Teixeira (...) disse que cantar uma música de
protesto em circunstâncias de perseguição
policial pode, sim, ser ação política.
Os rappers, cujos primeiros shows na periferia sofriam de repressão
policial, certamente sabem do que ele estava falando. (SOVIK,
Liv. What a wonderful world: música popular, identificações,
política anti-racista. In: RAMOS, Sílvia (org.).
Mídia e racismo. Rio de Janeiro: Pallas, 2002. p. 103-104)
34 Utilizamos o termo gueto, pois acreditamos
que as favelas brasileiras se relacionam com a seguinte definição.
Gueto é uma forma urbana específica que conjuga
os quatro elementos do racismo repertoriados por Michel Wierviorka
– preconceito, violência, segregação
e discriminação. (WACQUANT, p. 18)
35 PAIXÃO, Marcelo J. P. Desenvolvimento
humano e relações sociais. Rio de Janeiro: DP&A,
2003. (p.80)
36 KEHL. M. R. Quem tem moral com os
adolescentes? (Duas hipóteses sobre a crise na educação
no século XXI). Texto apresentado no IV Colóquio
do Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas
e Educacionais/LEPSI- USP. Oct. 2002. Disponível em:
http://www.proceedings.scielo.br/
37 Um bairro rico da cidade de São
Paulo.